Domine a Norma Culta
Bem-vindo ao Estudo de Língua Portuguesa promovido pelo site www.conectados.site — um percurso gratuito destinado a todos que aspiram compreender, com rigor e profundidade, os fundamentos do idioma que nos constitui.
Este estudo propõe-se como um convite à consciência linguística — um exercício de domínio da língua que ultrapassa a comunicação cotidiana, alcançando a compreensão mais ampla do mundo, do outro e de si próprio.
Ao longo deste caminho, você será conduzido da fonética à semântica, passando pelos alicerces gramaticais que estruturam a nossa expressão e o nosso pensamento.
Sumário
1. Fonética e Fonologia
2. Acentuação
3. Nova Ortografia
4. Ortografia
4.1 Uso de S e Z
4.2 Uso de J e G
4.3 Uso de X e CH
5. Processos de Formação de Palavras
5.1 Derivação
5.2 Composição
5.3 Hibridismo
5.4 Estrangeirismo
5.5 Onomatopeia
5.6 Morfologia
5.6.1 Morfema
5.6.2 Radical
5.6.3 Desinência Verbal e Nominal
6. Classes de Palavras
7. Análise Sintática – Período Simples
7.1 Sujeito
7.2 Predicado
7.3 Transitividade Verbal
7.4 Complemento Verbal (OD, OI, ODI)
7.5 Complemento Nominal
7.6 Aposto
7.7 Vocativo
7.8 Adjunto Adverbial
7.9 Adjunto Adnominal
7.10 Predicado do Sujeito e do Objeto
7.11 Agente da Passiva
8. Análise Sintática – Período Composto
8.1 Orações Coordenadas
8.2 Orações Subordinadas Substantivas
8.3 Orações Subordinadas Adjetivas
8.4 Orações Subordinadas Adverbiais
8.5 Orações Reduzidas
9. Concordância Verbal
10. Concordância Nominal
11. Regência Verbal e Nominal
12. Crase
13. Pontuação
14. Semântica
14.1 Figuras de Linguagem
14.2 Funções da Linguagem
14.3 Variação Linguística
Aula 1. Fonética e Fonologia
Definições Iniciais
Fonética e fonologia são áreas da linguística que estudam os sons da fala, mas com focos diferentes:
Fonética: estuda os sons da fala do ponto de vista físico e articulatório, ou seja, como os sons são produzidos pelo aparelho fonador (boca, língua, cordas vocais etc.).
Fonologia: estuda os sons do ponto de vista funcional, ou seja, como esses sons funcionam dentro de um sistema linguístico (diferenciando palavras, por exemplo).
1.1 Fonema e Letra
Letra: é a representação gráfica (escrita) do som. Ex: A, B, C.
Fonema: é a menor unidade sonora da fala. Ex: a palavra “casa” tem 4 letras e 4 fonemas: /k/ /a/ /z/ /a/.
Exemplo prático:
Palavra: “táxi”
Letras: 4 (T, A, X, I)
Fonemas: 5 (/t/ /a/ /k/ /s/ /i/) – porque o X representa dois sons.
1.2 Classificação dos Fonemas
a) Fonemas vocálicos:
São os sons das vogais e semivogais.
Vogais: sons produzidos com passagem livre de ar.
A, E, I, O, U
Semivogais: sons mais fracos que acompanham uma vogal na mesma sílaba.
Ex: “pai” (/paj/) → “i” é semivogal
Ex: “muito” (/mũjto/) → “u” é semivogal
b) Fonemas consonantais:
Sons produzidos com obstáculos à passagem de ar.
Representados por consoantes: B, C, D, F, G, etc.
1.3 Encontros Fonéticos
Encontro vocálico:
Quando duas ou mais vogais ou semivogais aparecem juntas na mesma palavra.
Tipos:
Ditongo: vogal + semivogal (ou vice-versa) na mesma sílaba.
Ex: céu, caixa, leite.
Tritongo: semivogal + vogal + semivogal.
Ex: Uruguai, iguais.
Hiato: duas vogais em sílabas diferentes.
Ex: saída, poesia.
Encontro consonantal:
Duas ou mais consoantes juntas na mesma palavra.
Ex: plano, breve, crise.
Dígrafos:
Duas letras que representam um único fonema.
Consonantais: ch (chuva), lh (olho), nh (banho), rr (carro), ss (massa), sc, sç, xc.
Vocálicos: am, an, em, en (antes de consoantes ou no fim da sílaba).
Ex: campo (/kãpo/), tempo (/tẽpo/).
Obs: O hiato e o ditongo são dois tipos de encontro vocálico, mas a diferença entre eles está na separação silábica e na intensidade das vogais.
O hiato acontece quando duas vogais fortes aparecem juntas na escrita, mas ficam em sílabas separadas na fala.
Exemplos de Hiato:
sa-í-da → "a" e "í" são vogais e estão em sílabas diferentes.
po-e-si-a → "o" e "e" não se juntam na mesma sílaba: po-e.
vi-ú-va → "i" e "u" são vogais aqui, não semivogais, e se separam: vi-ú.
Dica para identificar:
Se você pronuncia cada vogal de forma clara e separada, é hiato.
Geralmente, uma dessas vogais é acentuada, principalmente o "i" ou o "u": saída, país.
O ditongo ocorre quando uma vogal e uma semivogal (ou o contrário) ficam juntas na mesma sílaba.
Exemplos de Ditongo:
pai → "a" (vogal) + "i" (semivogal): uma só sílaba.
céu → "é" (vogal) + "u" (semivogal): uma só sílaba.
cai-xa → “cai” é uma sílaba com ditongo.
Teste rápido:
Diga a palavra em voz alta.
Se você sente que tem que abrir a boca duas vezes (uma para cada vogal), é hiato.
Se as vogais saem juntas como um só som, é ditongo.
1.4 Divisão silábica
Separar as palavras em sílabas conforme a sonoridade.
Exemplos:
ca-sa
a-mor
re-gra
em-pre-sa
1.5 Classificação das palavras quanto à tonicidade
Oxítonas: última sílaba é a tônica. Ex: café, também, cipó.
Paroxítonas: penúltima sílaba é a tônica. Ex: mesa, lápis.
Proparoxítonas: antepenúltima sílaba é a tônica. Ex: lâmpada, médico, rápido.
1.6 Transcrição Fonética (Avançado, mas útil)
Representação de sons por símbolos do AFI (Alfabeto Fonético Internacional).
Exemplo:
“gato” = [ˈga.tu]
“fácil” = [ˈfa.siw]
Isso é útil para estudo mais técnico ou linguístico do português.
Resumo
Termo e significado:
Letra -Representação gráfica do som
Fonema - Unidade sonora mínima
Vogal - Som forte e livre de obstáculos
Semivogal - Som fraco que acompanha uma vogal
Consoante - Som com obstáculos no trato vocal
Ditongo - Vogal + semivogal ou vice-versa na mesma sílaba
Tritongo - Semivogal + vogal + semivogal
Hiato - Duas vogais em sílabas diferentes
Dígrafo - Duas letras = 1 som
Oxítona - Última sílaba tônica
Paroxítona - Penúltima sílaba tônica
Proparoxítona - Antepenúltima sílaba tônica
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Aula 2 – Acentuação Gráfica
A acentuação gráfica na língua portuguesa segue regras bem definidas, cuja função principal é marcar a sílaba tônica de uma palavra, além de diferenciar significados, indicar nasalidade ou fusão de vogais. Esta aula apresenta os tipos de acentos, suas funções, regras de uso e as principais exceções.
2.1 Por que usamos acentos gráficos?
No português, utilizamos sinais gráficos para indicar:
- Tonicidade (qual sílaba da palavra é pronunciada com mais intensidade)
- Qualidade do som vocálico (aberto ou fechado)
- Distinção entre palavras de mesma grafia (homônimos)
- Nasalidade
- Fusão de vogais idênticas (crase)
Sinais gráficos usados:
Acento agudo ( ´ )
Indica vogal aberta e tônica:
Ex: café, até, pé
Acento circunflexo ( ^ )
Indica vogal fechada e tônica:
Ex: você, pêssego, avô
Acento grave ( ` )
Não marca tonicidade. É usado para indicar a crase, ou seja, a fusão da preposição "a" com o artigo ou pronome também "a":
Ex: Vou à escola. / Cheguei àquela hora.
Til ( ~ )
Indica nasalização da vogal:
Ex: irmão, maçã, órgão, manhã
Observação: O til frequentemente aparece em sílabas tônicas, mas sua função é nasalizar o som, e não indicar a tonicidade diretamente.
Trema ( ¨ )
Usado antes das letras "u" nos grupos "gue", "gui", "que", "qui" para indicar a pronúncia do "u".
Foi abolido em palavras portuguesas com a Reforma Ortográfica, mas permanece em nomes próprios estrangeiros:
Ex: Müller, Bündchen
2.2 Classificação das palavras quanto à tonicidade
As palavras podem ser classificadas de acordo com a posição da sílaba tônica:
Oxítonas: última sílaba é a tônica
Ex: café, sofá, cipó
Paroxítonas: penúltima sílaba é a tônica
Ex: mesa, lápis, tórax
Proparoxítonas: antepenúltima sílaba é a tônica
Ex: lâmpada, médico, rápido
Todas as proparoxítonas são acentuadas.
2.3 Regras de Acentuação (Principais casos)
A) Oxítonas
Acentuam-se as palavras terminadas em:
a(s), e(s), o(s)
Ex: café, sofá, cajá, paletó
em, ens
Ex: armazém, também, armazéns
Não se acentuam: palavras terminadas em i ou u, quando sozinhas na sílaba final e não seguidas de outra vogal.
Ex: Tuiuiú (acentua porque o "u" está em sílaba tônica isolada)
B) Paroxítonas
Acentuam-se quando terminam em:
i(s), is, us, um, uns, r, l, n, x, ps, ão, ã, ei, i, u
Ex: lápis, vírus, álbum, bíceps, tórax, hífen, júri
Não se acentuam: paroxítonas terminadas em a(s), e(s), o(s) (que são acentuadas quando oxítonas).
Ex: mesa, livro, telefone
C) Proparoxítonas
Regra simples:
Todas são acentuadas.
Ex: lâmpada, mágico, pálido, público
2.4 Regras Especiais e Casos Particulares
Hiato com “i” e “u” tônicos
Acentuam-se “i” e “u” tônicos que:
- Formam hiato com a vogal anterior
- Estão sozinhos na sílaba
- Não estão seguidos de “nh”
Ex: baú, saída, país, saúde
Não se acentuam: rainha, moinho (porque o "i" está junto do "nh")
Verbos com "i" ou "u" tônicos nas terminações
Ex: eu saí, ele constrói, ela possui
Palavras homônimas com acento diferencial
Acento usado para distinguir palavras de mesma grafia, mas com sentidos diferentes.
Exemplos:
pôde (pretérito) × pode (presente)
pôr (verbo) × por (preposição)
Formas verbais com pronome oblíquo
dê-lhe, dê-nos, pô-lo, fazê-lo
Observação: seguem a acentuação do verbo principal.
2.5 Reformas Ortográficas e Mudanças na Acentuação
A Reforma Ortográfica (2009) aboliu alguns acentos, como:
O trema em palavras de origem portuguesa
Ex: linguiça, consequência
O acento em palavras com “i” ou “u” tônicos em verbos com “gu” ou “qu” antes dessas letras, quando o som do “u” é pronunciado
Ex: averigúe → averigue, enxágúe → enxague
O acento de “pára” (verbo parar)
Agora: para
Resumo
Termo e significado:
Acento agudo - Marca vogal tônica e aberta (Ex: café)
Acento circunflexo - Marca vogal tônica e fechada (Ex: você)
Acento grave - Indica a crase (Ex: à escola)
Til - Marca nasalidade (Ex: irmão)
Trema - Indica pronúncia do “u” (abolido em palavras comuns)
Oxítona - Última sílaba tônica (Ex: café)
Paroxítona - Penúltima sílaba tônica (Ex: lápis)
Proparoxítona - Antepenúltima sílaba tônica (Ex: lâmpada)
Hiato - Separação silábica entre duas vogais (Ex: saída)
Crase - Fusão de preposição + artigo (Ex: à escola)
Acento diferencial - Distingue palavras idênticas na grafia (Ex: por / pôr)
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Aula 3 – Nova Ortografia
Com o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, algumas regras foram modificadas para unificar a escrita entre os países de língua portuguesa. Veja a seguir o que mudou:
3.1 Inclusão de letras no alfabeto
O alfabeto passou a ter 26 letras, com a inclusão de K, W e Y.
Exemplos:
kayak, watt, yen
3.2 Fim do trema
O trema (¨) foi abolido em palavras de uso comum. A pronúncia continua a mesma.
Antes: lingüiça, conseqüência
Agora: linguiça, consequência
Obs.: o trema permanece em nomes estrangeiros e seus derivados (ex: Müller).
3.3 Regras do hífen com prefixos
Prefixo + vogal diferente → Sem hífen
autoescola, aeroespacial
Prefixo + mesma vogal → Com hífen
micro-ondas, anti-inflamatório
Prefixo terminado em consoante + mesma consoante → Com hífen
inter-relação, sub-bibliotecário
Prefixo terminado em consoante + consoante diferente → Sem hífen
intermunicipal, subsolo
Prefixos “re”, “co”, “pre” + vogal igual → Sem hífen
reescrever, coautor, preexistente
Uso de “não” e “quase” → Sem hífen
não fumante, quase amigo
3.4 Palavras compostas
Perdem o hífen por representarem uma unidade de sentido
paraquedas, paraquedista, passatempo
Mantêm o hífen por tradição ou clareza
segunda-feira, guarda-chuva, arco-íris
Uso do hífen com “bem” e “mal”
“bem” + palavra iniciada com H → Com hífen
bem-humorado, bem-humorada
“bem” + palavra sem H → Sem hífen (com exceções)
Exceções: bem-vindo, bem-sucedido
“mal” + palavra iniciada com vogal → Sem hífen
mal educado, mal acabado
“mal” + palavra iniciada com H ou consoante → Com hífen
mal-humorado
Resumo
O alfabeto passou a ter 26 letras (K, W e Y).
O trema foi abolido, mas a pronúncia permanece.
O uso do hífen mudou: Depende da junção do prefixo com vogais ou consoantes.
Algumas palavras compostas perderam o hífen, outras o mantêm por tradição.
Com bem/mal, o uso do hífen depende da letra que inicia a próxima palavra.
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Aula 4 – Ortografia
A ortografia é o conjunto de regras que normatizam a escrita correta das palavras. Dominar a ortografia é essencial não só para se comunicar com precisão, mas também para evitar ruídos de interpretação e transmitir credibilidade.
A língua portuguesa tem diversas armadilhas ortográficas que não seguem uma lógica intuitiva, sendo necessário o estudo e a prática para internalizar seu uso correto.
Nesta aula, vamos nos debruçar sobre três casos muito comuns de confusão: o uso das letras S e Z, J e G, e X e CH.
4.1 Uso de S e Z
As letras S e Z podem representar sons semelhantes, o que gera dúvidas frequentes na escrita.
a) Uso do S
Usa-se S:
Em palavras derivadas de outras com S na forma primitiva:
casa → casar
defesa → defensivo
ensaio → ensaiar
Em palavras terminadas em -oso, -osa (quando indicam qualidade):
precioso, maravilhosa, carinhosa
Nos sufixos -ese, -isa, -oso, -isa:
português → portuguesa
poesia → poetisa
Em verbos derivados de substantivos com S:
análise → analisar
crise → crisar
b) Uso do Z
Usa-se Z:
Em substantivos abstratos derivados de adjetivos, com o sufixo -ez ou -eza:
rico → riqueza
limpo → limpeza
Em diminutivos terminados em -zinho ou -zinha (quando o radical termina em vogal):
mãe → mãezinha
pé → pezinho
Em verbos terminados em -izar (mas atenção: há exceções):
civilizar, organizar, priorizar
Obs: Palavras terminadas em -iso/-isa nem sempre vêm de verbos com -izar.
Ex: análise → analisar (com S), não "analizar"
4.2 Uso de J e G
A confusão entre J e G também é recorrente porque ambas representam o mesmo som /ʒ/ (som de “j”).
a) Uso do J
Usa-se J:
Em palavras de origem tupi, africana ou estrangeira:
canjica, pajé, manjericão, jiboia, jerimum
Em verbos terminados em -jar:
viajar, arranjar, despejar
(e suas formas conjugadas: viajei, arranjei)
Em palavras derivadas de outras com J:
loja → lojista
laje → lajeado
b) Uso do G
Usa-se G:
Antes das vogais E e I, com som de J:
gelo, gente, genealogia
gíria, girafa, gilete
Em palavras terminadas em -ágio, -égio, -ígio, -ógio, -úgio:
estágio, colégio, prestígio, relógio, refúgio
Palavras de origem grega ou latina com G na etimologia:
gesto (do latim gestus), gerar (do latim generare)
4.3 Uso de X e CH
Apesar dos sons parecidos (/ʃ/), há regras e padrões que ajudam a distinguir o uso de X e CH.
a) Uso do X
Após ditongos nas palavras de origem portuguesa:
feixe, peixe, ameixa
Após a sílaba inicial “en” e “me” (quando não se trata de exceções):
enxada, enxame, mexer, mexido
Obs: Exceções: encher, enchente, encharcar, enchiqueirar
Em palavras de origem indígena ou africana:
xaxim, xangô, xavante
Palavras iniciadas com “ex-” que expressam ideia de intensidade ou negação:
excesso, exclusivo, extremo
b) Uso do CH
Na maioria das palavras de origem francesa:
chapéu (chapeau), chalé (chalet)
Palavras do vocabulário tradicional e popular:
chuva, chão, chave, chimarrão
Palavras em que CH é tradicional e não há palavra cognata com X:
cheiro, charco, chifre
Dica
A melhor forma de fixar essas regras é por meio da leitura frequente e da escrita atenta. A ortografia não obedece à lógica, mas à tradição. Por isso, leia bons textos, observe as palavras e, sempre que tiver dúvida, consulte o dicionário.
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Aula 5 — Processos de Formação de Palavras
A formação de palavras é um dos fenômenos mais interessantes da língua portuguesa, pois mostra como a criatividade e a necessidade de expressão levam à criação de novas palavras. Existem diversos processos que permitem essa expansão do vocabulário, como veremos a seguir.
5.1 Derivação
A derivação é um dos processos mais comuns de formação de palavras. Ela consiste na criação de uma nova palavra a partir de uma palavra já existente, chamada de radical, pela adição de afixos (prefixos ou sufixos).
Tipos de Derivação:
a) Derivação Prefixal:
Ocorre quando se adiciona um prefixo antes do radical.
Exemplos:
infeliz (in- + feliz)
desleal (des- + leal)
b) Derivação Sufixal:
Ocorre quando se adiciona um sufixo depois do radical.
Exemplos:
felicidade (feliz + -idade)
livreiro (livro + -eiro)
c) Derivação Prefixal e Sufixal:
A palavra recebe ao mesmo tempo um prefixo e um sufixo, mas pode existir com apenas um deles.
Exemplos:
infelizmente (in- + feliz + -mente)
deslealdade (des- + leal + -dade)
d) Derivação Parassintética:
O prefixo e o sufixo são adicionados simultaneamente; a palavra não existe sem os dois ao mesmo tempo.
Exemplos:
envelhecer (en- + velho + -ecer)
emburrecer (em- + burro + -ecer)
e) Derivação Regressiva:
Forma-se uma nova palavra pela redução da estrutura da palavra primitiva, geralmente criando um substantivo a partir de um verbo.
Exemplos:
compra (de comprar)
luta (de lutar)
f) Derivação Imprópria:
Ocorre quando uma palavra muda de classe gramatical sem sofrer alteração na sua forma.
Exemplos:
o jantar (verbo jantar vira substantivo)
o correr (verbo correr vira substantivo)
5.2 Composição
A composição é o processo de formação de palavras a partir da união de dois ou mais radicais, criando uma nova palavra com significado próprio.
Tipos de Composição:
a) Composição por Justaposição:
Os radicais se unem sem que haja alteração em sua forma.
Exemplos:
passatempo (passa + tempo)
girassol (gira + sol)
b) Composição por Aglutinação:
Os radicais se unem e ocorre alguma alteração em sua estrutura.
Exemplos:
planalto (plano + alto) — houve a perda do “o” de plano.
vinagre (vinho + acre)
Observação:
Tanto na justaposição quanto na aglutinação, a nova palavra possui um significado diferente da simples soma dos significados dos radicais.
5.3 Hibridismo
O hibridismo ocorre quando uma nova palavra é formada a partir da combinação de elementos de línguas diferentes (grego, latim, inglês, francês, etc.).
Exemplos:
automóvel (auto = grego; móvel = latim)
sociologia (sócio = latim; logia = grego)
monóculo (mono = grego; óculo = latim)
Importante:
O hibridismo mostra como a língua portuguesa é aberta a influências externas e à mistura de culturas linguísticas.
5.4 Estrangeirismo
O estrangeirismo é o uso de palavras estrangeiras, tal como são no idioma original, sem tradução.
Exemplos:
shopping
hambúrguer
software
feedback
Observação:
Alguns estrangeirismos são adaptados à grafia e à pronúncia do português ao longo do tempo, outros permanecem como originalmente.
5.5 Onomatopeia
A onomatopeia é a formação de palavras que imitam sons da natureza, de objetos ou de seres vivos.
Exemplos:
tique-taque (som do relógio)
miau (som do gato)
toc-toc (som de batida na porta)
pum (som de explosão ou de escape de gás)
Importante:
A onomatopeia é muito usada em histórias em quadrinhos, literatura infantil e também na linguagem popular para tornar a comunicação mais expressiva.
5.6 Morfologia
A Morfologia é a área da gramática que estuda a estrutura, a formação e a classificação das palavras.
Ela analisa como as palavras são formadas, quais são suas partes (como prefixos, radicais, sufixos) e como elas mudam de forma para expressar diferentes sentidos.
5.6.1 Morfema
Morfema é a menor unidade significativa de uma palavra.
Ele não pode ser dividido sem que perca o seu sentido.
Existem dois tipos principais de morfema:
Morfema lexical: traz o significado principal da palavra (ex.: radicais).
Morfema gramatical: indica relações gramaticais, como gênero, número, tempo verbal (ex.: desinências, afixos).
Exemplos:
menininhas → menin- (radical) + -inh- (sufixo de diminutivo) + -a (marca de gênero feminino) + -s (marca de plural)
cantariam → cant- (radical) + -ar- (vogal temática) + -ia- (tempo/modo) + -m (marca de plural, terceira pessoa)
5.6.2 Radical
O radical é o elemento básico da palavra, que contém a ideia central do seu significado.
A partir dele formamos várias palavras derivadas.
Exemplos:
am-: amor, amável, amador
flor-: florescer, florido, floricultura
escrev-: escrever, reescrever, escritor
Importante:
O radical é como o “tronco” que dá origem a diversas palavras da mesma “família”.
5.6.3 Desinência Verbal e Nominal
A desinência é o morfema que indica flexões nas palavras, ou seja, mudanças de:
Gênero (masculino/feminino),
Número (singular/plural),
Tempo, modo, número e pessoa dos verbos.
Desinência Nominal
Indica gênero e número em nomes (substantivos e adjetivos).
Exemplos:
menino (-o indica gênero masculino)
menina (-a indica gênero feminino)
meninas (-s indica plural)
Desinência Verbal
Indica tempo, modo, número e pessoa nos verbos.
Exemplos:
cantava
-va: desinência modo-temporal (pretérito imperfeito do indicativo)
cantariam
-iam: desinência modo-temporal (futuro do pretérito do indicativo, terceira pessoa do plural)
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Aula 6: Classes de Palavras
As palavras são os blocos de construção do idioma. Cada palavra exerce uma função dentro da estrutura da língua e, para entendê-la plenamente, precisamos classificá-las conforme suas características e papéis.
Classes de palavras são os grupos em que se organizam as palavras da língua, segundo suas funções morfológicas e semânticas. Elas são também chamadas de categorias gramaticais.
A divisão tradicional das classes de palavras em português contempla dez classes, subdivididas em:
Variáveis (alteram sua forma para indicar gênero, número, pessoa, tempo, modo etc.);
Invariáveis (mantêm sua forma, sem flexão).
Vamos agora estudar cada uma delas de forma rigorosa e profunda.
6.1 Classes de Palavras Variáveis
São seis as classes variáveis: substantivo, adjetivo, artigo, numeral, pronome e verbo.
6.1.1 Substantivo
O substantivo é a palavra que dá nome a seres, coisas, lugares, sentimentos, ideias, ações, entre outros.
Exemplos:
Seres: homem, Maria, gato.
Coisas: mesa, caneta, avião.
Lugares: Brasil, escola, cidade.
Sentimentos: amor, tristeza, esperança.
Ideias: liberdade, justiça, sabedoria.
Ações: corrida, estudo, caminhada.
Características:
Flexiona-se em gênero (masculino e feminino), número (singular e plural) e grau (aumentativo e diminutivo).
Exemplos de flexão:
Gênero: menino/menina
Número: livro/livros
Grau: casa/casinha
Classificação dos substantivos:
Comuns: nomeiam seres de forma genérica (cachorro, cidade).
Próprios: designam seres de forma particular e única (Brasil, João).
Concretos: nomeiam seres reais ou imaginários, mas que existem de forma independente (mesa, fada).
Abstratos: nomeiam qualidades, sentimentos, ações ou estados dependentes de outro ser para se manifestar (beleza, amor, corrida).
Coletivos: indicam um conjunto de seres da mesma espécie (alcateia, cardume, multidão).
6.1.2 Adjetivo
O adjetivo é a palavra que qualifica o substantivo, atribuindo-lhe uma qualidade, estado, condição ou característica.
Exemplos:
menino inteligente
flor bela
caminho longo
Flexão:
Concorda em gênero e número com o substantivo que qualifica.
Exemplos:
casa bonita → casas bonitas
menino forte → meninos fortes
Classificação dos adjetivos:
Simples: formados por um único radical (triste, feliz).
Composto: formados por mais de um radical (amarelo-ouro, luso-brasileiro).
Primitivo: não derivado de outra palavra (bom, triste).
Derivado: originado de outra palavra (amável de “amar”; nervoso de “nervo”).
Locução adjetiva: expressão de valor adjetivo formada por preposição + substantivo.
Exemplo: amor de mãe (amor maternal).
6.1.3 Artigo
O artigo é a palavra que antecede o substantivo para determiná-lo de maneira definida ou indefinida.
Tipos:
Definido: o, a, os, as (indicam algo já conhecido).
Indefinido: um, uma, uns, umas (indicam algo ainda não conhecido).
Exemplos:
O carro chegou cedo. (carro conhecido)
Um carro passou na rua. (carro qualquer)
6.1.4 Numeral
O numeral é a palavra que indica quantidade, ordem, multiplicação ou fração dos seres.
Classificação dos numerais:
Cardinais: quantidade exata (um, dois, três).
Ordinais: ordem (primeiro, segundo, terceiro).
Multiplicativos: multiplicação (dobro, triplo).
Fracionários: divisão (meio, um terço).
Exemplos:
Comprei três livros. (cardinal)
Ela foi a segunda a chegar. (ordinal)
Ganhou o dobro do prêmio. (multiplicativo)
Comi metade do bolo. (fracionário)
6.1.5 Pronome
O pronome é a palavra que substitui ou acompanha o substantivo, indicando sua posição em relação às pessoas do discurso (quem fala, com quem se fala e de quem se fala).
Classificação dos pronomes:
Pessoais: indicam as pessoas do discurso (eu, tu, ele, nós, vós, eles).
Possessivos: indicam posse (meu, teu, seu, nosso).
Demonstrativos: indicam localização no espaço, tempo ou texto (este, esse, aquele).
Indefinidos: indicam ideia vaga (alguém, ninguém, tudo, nada, cada).
Relativos: substituem um termo anterior e estabelecem relação (que, quem, cujo, onde).
Interrogativos: formulam perguntas (que, quem, qual).
Exemplos:
Eu fui ao mercado. (pessoal)
Este é o meu livro. (possessivo)
Aquele prédio é antigo. (demonstrativo)
Alguém chamou você. (indefinido)
A mulher que me ajudou. (relativo)
Quem é você? (interrogativo)
6.1.6 Verbo
O verbo é a palavra que indica ação, estado, fenômeno da natureza, mudança de estado ou desejo.
Exemplos:
Ação: correr, falar, estudar.
Estado: ser, estar, parecer.
Fenômeno: chover, nevar, ventar.
Mudança de estado: crescer, adoecer, amadurecer.
Flexão verbal:
Pessoa: 1ª, 2ª, 3ª.
Número: singular, plural.
Tempo: presente, passado, futuro.
Modo: indicativo, subjuntivo, imperativo.
Voz: ativa, passiva, reflexiva.
Exemplo de conjugação: Verbo AMAR (Indicativo Presente)
Eu amo
Tu amas
Ele ama
Nós amamos
Vós amais
Eles amam
6.2 Classes de Palavras Invariáveis
As classes invariáveis não sofrem flexão de gênero, número, pessoa, tempo ou modo.
São elas: advérbio, preposição, conjunção e interjeição.
6.2.1 Advérbio
O advérbio é a palavra que modifica o verbo, o adjetivo ou outro advérbio, exprimindo circunstância.
Exemplos:
Verbo: Ela fala rapidamente.
Adjetivo: Ele é muito forte.
Advérbio: Ela corre muito rapidamente.
Classificação dos advérbios:
Modo: bem, mal, depressa.
Tempo: hoje, ontem, cedo, tarde.
Lugar: aqui, ali, lá, dentro.
Intensidade: muito, pouco, demais.
Negação: não, nunca, jamais.
Afirmação: sim, certamente.
Dúvida: talvez, provavelmente.
6.2.2 Preposição
Preposição é a palavra que liga dois termos, estabelecendo entre eles uma relação de dependência ou subordinação.
Principais preposições:
a, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para, perante, por, sem, sob, sobre, trás.
Exemplos:
Fui a escola.
Livro de matemática.
Saiu com pressa.
6.2.3 Conjunção
Conjunção é a palavra que liga orações ou palavras, estabelecendo relações de coordenação ou subordinação.
Tipos de conjunções:
Coordenativas: ligam orações independentes (e, mas, ou, portanto).
Subordinativas: ligam orações dependentes (porque, embora, que, quando).
Exemplos:
Estudo e trabalho. (adição)
Estudo, mas estou cansado. (adversidade)
Não fui à aula porque estava doente. (causa)
6.2.4 Interjeição
Interjeição é a palavra que expressa emoções, sentimentos, reações ou chamadas, geralmente de maneira súbita.
Exemplos:
Ah! Que pena!
Bravo! Você conseguiu!
Socorro! Estou preso!
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Aula 7. Análise Sintática – Período Simples
A análise sintática é o estudo da estrutura da frase, ou seja, da relação entre as palavras e os grupos de palavras dentro de um enunciado.
No período simples, lidamos com orações que apresentam apenas um verbo ou uma locução verbal, e, portanto, expressam uma única ação, estado ou fenômeno.
Dominar a análise sintática do período simples é fundamental para:
interpretar corretamente textos;
escrever com clareza e precisão;
fundamentar a compreensão do período composto, que é uma extensão mais complexa dessas bases.
Vamos mergulhar, item a item, nos principais elementos que compõem uma oração de período simples.
7.1 Sujeito
Definição
O sujeito é o termo da oração que normalmente indica quem ou o que realiza a ação verbal, sofre essa ação, ou está em determinado estado.
Exemplo básico:
O menino correu para casa.
"Menino" é o sujeito da ação de correr.
Classificação dos sujeitos:
a) Sujeito simples
Possui apenas um núcleo (palavra principal).
Exemplo:
A professora explicou a matéria.
b) Sujeito composto
Possui dois ou mais núcleos.
Exemplo:
O pai e o filho viajaram.
c) Sujeito oculto (elíptico)
Não está expresso na oração, mas é identificado pelo contexto ou pela desinência verbal.
Exemplo:
(Nós) Estudamos muito ontem.
d) Sujeito indeterminado
Ocorre quando:
usa-se o verbo na 3ª pessoa do singular com o índice "se":
Exemplo: Precisa-se de funcionários.
ou o verbo na 3ª pessoa do singular com o pronome "se" oculto:
Exemplo: Vive-se bem aqui.
e) Oração sem sujeito (orações impessoais)
Não há sujeito. Normalmente com:
verbos indicando fenômenos naturais:
Exemplo: Choveu muito ontem.
verbo "haver" no sentido de existir ou acontecer:
Exemplo: Havia muitos alunos na sala.
verbo "fazer" indicando tempo:
Exemplo: Faz três anos que viajei.
7.2 Predicado
Definição
O predicado é tudo aquilo que se declara a respeito do sujeito.
Exemplo:
O cachorro late alto.
("Late alto" é o predicado, pois informa algo sobre "o cachorro").
Tipos de predicado:
a) Predicado verbal
O núcleo é um verbo de ação.
Exemplo:
O atleta correu muito.
b) Predicado nominal
O núcleo é um nome (substantivo ou adjetivo), e o verbo é de ligação.
Exemplo:
A vida é bela.
c) Predicado verbo-nominal
Possui dois núcleos: um verbo significativo e um nome que qualifica o sujeito ou o objeto.
Exemplo:
A mulher chegou cansada.
("Chegou" é ação; "cansada" é o estado da mulher.)
7.3 Transitividade Verbal
Definição
Transitividade verbal é a necessidade (ou não) que o verbo tem de se completar com outros termos.
Verbo intransitivo: não precisa de complemento.
Exemplo:
O avião decolou.
Verbo transitivo: precisa de complemento para fazer sentido completo.
Tipos:
Verbo transitivo direto (VTD): exige objeto direto.
Verbo transitivo indireto (VTI): exige objeto indireto (com preposição).
Verbo transitivo direto e indireto (VTDI): exige dois complementos (direto e indireto).
Exemplos:
VTD: Eu comprei um carro. (objeto direto: "um carro")
VTI: Ela gosta de música. (objeto indireto: "de música")
VTDI: Ele informou o aluno sobre o horário. (objeto direto: "o aluno"; objeto indireto: "sobre o horário")
7.4 Complemento Verbal (OD, OI, ODI)
Objeto Direto (OD)
Definição:
Completa o sentido do verbo sem o uso de preposição obrigatória.
Exemplo:
Vi o filme.
("O filme" é o objeto direto de "vi".)
Objeto Indireto (OI)
Definição:
Completa o sentido do verbo com o uso de preposição.
Exemplo:
Gostei do livro.
("Do livro" é o objeto indireto de "gostei".)
Objeto Direto e Indireto (ODI)
Quando o verbo exige dois complementos simultaneamente.
Exemplo:
Entreguei o pacote ao cliente.
"o pacote" (objeto direto)
"ao cliente" (objeto indireto)
7.5 Complemento Nominal
Definição
É o termo que completa o sentido de um nome (substantivo, adjetivo ou advérbio).
Sempre com preposição.
Exemplo:
Amor à natureza.
("à natureza" completa o substantivo "amor".)
Outro exemplo com adjetivo:
Exemplo:
Fiel aos princípios.
("aos princípios" complementa o adjetivo "fiel".)
7.6 Aposto
Definição
O aposto é um termo que explica, resume, especifica ou enumera o sujeito ou o objeto.
Exemplo:
Machado de Assis, grande escritor brasileiro, escreveu Dom Casmurro.
("grande escritor brasileiro" é aposto explicativo de "Machado de Assis".)
7.7 Vocativo
Definição
O vocativo é o termo que serve para chamar, invocar ou interpelar o interlocutor.
É sempre separado por vírgula.
Exemplo:
Pedro, venha aqui.
("Pedro" é o vocativo.)
7.8 Adjunto Adverbial
Definição
Termo que indica circunstância da ação verbal (tempo, lugar, modo, causa, etc.)
Exemplo:
Estudamos muito ontem.
("Ontem" é adjunto adverbial de tempo.)
Principais circunstâncias:
Tempo: ontem, hoje, à noite.
Lugar: aqui, lá, na escola.
Modo: rapidamente, com calma.
Causa: por medo, devido à chuva.
Finalidade: para estudar.
Condição: se chover.
Concessão: apesar do frio.
7.9 Adjunto Adnominal
Definição
Termo que caracteriza ou determina um substantivo, sem completar seu sentido.
Exemplo:
O livro de matemática é difícil.
("de matemática" é adjunto adnominal, pois qualifica "livro".)
Diferença entre adjunto adnominal e complemento nominal:
Adjunto adnominal: o substantivo é ativo (praticante da ação).
Complemento nominal: o substantivo é passivo (sofre a ação).
Exemplo comparativo:
Amor de mãe (adjunto adnominal: mãe ama)
Amor à mãe (complemento nominal: mãe é amada)
7.10 Predicativo do Sujeito e do Objeto
Predicativo do sujeito:
Caracteriza o sujeito através de verbo de ligação ou de ação.
Exemplo:
O céu está azul.
("Azul" é predicativo do sujeito "céu".)
Predicativo do objeto:
Caracteriza o objeto.
Exemplo:
Considero-o inocente.
("Inocente" é predicativo do objeto "o".)
7.11 Agente da Passiva
Definição
Termo que indica quem pratica a ação verbal em uma oração na voz passiva.
Exemplo:
O livro foi escrito por Machado de Assis.
("por Machado de Assis" é o agente da passiva.)
Observações:
Sempre vem introduzido por preposição, geralmente "por" ou "pelo".
Só aparece em orações passivas.
Resumo
Sujeito → quem ou o que pratica/sofre a ação
Predicado → informação sobre o sujeito
Complemento verbal → objeto direto / objeto indireto
Complemento nominal → completa nomes
Aposto → explica ou resume
Vocativo → chama/interpela
Adjunto adverbial → indica circunstância
Adjunto adnominal → qualifica substantivo
Predicativo → caracteriza sujeito ou objeto
Agente da passiva → realiza a ação na voz passiva
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Aula 8 – Análise Sintática: Período Composto
No estudo da Análise Sintática, o período composto é o que vai além do período simples (aquele que possui apenas uma oração). No período composto, temos duas ou mais orações que se articulam entre si.
Antes de avançarmos, revisemos conceitos fundamentais:
Oração: é todo enunciado que contém, explicitamente ou implicitamente, um verbo ou locução verbal.
Período: é o enunciado que termina em ponto final, ponto de interrogação ou ponto de exclamação.
Período simples: contém apenas uma oração.
Período composto: contém duas ou mais orações.
Exemplo de período composto:
Quando cheguei à escola, encontrei os portões fechados.
Aqui temos duas orações:
Quando cheguei à escola (oração subordinada adverbial temporal)
Encontrei os portões fechados (oração principal)
Classificação dos Períodos Compostos
O período composto pode ser classificado de duas formas principais:
Por Coordenação – orações independentes, ligadas ou não por conjunções.
Por Subordinação – orações dependentes, em que uma exerce função sintática em relação à outra.
Também é possível encontrar períodos compostos por coordenação e subordinação ao mesmo tempo.
8.1 – Orações Coordenadas
As orações coordenadas são aquelas independentes entre si, ou seja, nenhuma delas exerce função sintática dentro da outra. Apesar disso, elas se unem por sentido lógico e geralmente por meio de conjunções coordenativas. Existem dois tipos principais:
a) Orações Coordenadas Assindéticas
São aquelas que aparecem sem conjunção ligando-as à anterior. O elo entre elas é dado apenas pela pontuação (geralmente a vírgula).
Exemplo: "Cheguei cedo, organizei tudo, esperei os convidados."
Neste caso, as orações são independentes e não possuem conjunções entre si.
b) Orações Coordenadas Sindéticas
São ligadas por conjunções coordenativas, que podem expressar diferentes relações de sentido. Há cinco tipos principais de orações coordenadas sindéticas:
Aditiva: exprimem soma ou adição. Utilizam conjunções como e, nem, mas também, como também.
Exemplo: “Estudou muito e passou no concurso.”
Adversativa: indicam oposição ou contraste. Conjunções: mas, porém, todavia, entretanto, no entanto, contudo.
Exemplo: “Tentou várias vezes, mas não conseguiu.”
Alternativa: exprimem alternância ou escolha. Conjunções: ou, ora...ora, já...já, quer...quer, seja...seja.
Exemplo: “Ou você estuda, ou será reprovado.”
Conclusiva: indicam conclusão ou consequência lógica. Conjunções: logo, portanto, assim, por isso, então.
Exemplo: “Estava cansado, portanto foi dormir cedo.”
Explicativa: indicam explicação, justificativa. Conjunções: porque, que, pois (antes do verbo), porquanto.
Exemplo: “Feche a janela, porque está ventando muito.”
8.2 – Orações Subordinadas Substantivas
As orações subordinadas substantivas exercem a função de um substantivo dentro da oração principal. Elas podem ser substituídas por “isso” na maioria dos casos e exercem funções sintáticas como sujeito, objeto direto, objeto indireto, complemento nominal, predicativo ou aposto. Normalmente, são introduzidas pelas conjunções que ou se.
Tipos de Orações Subordinadas Substantivas:
Subjetiva: exerce a função de sujeito da oração principal.
Exemplo: “É necessário que você estude mais.” (Oração subordinada exerce a função de sujeito de “é necessário”.)
Objetiva Direta: funciona como objeto direto de um verbo da oração principal.
Exemplo: “Desejo que todos venham.” (Objeto direto do verbo “desejo”.)
Objetiva Indireta: funciona como objeto indireto. Geralmente vem com preposição.
Exemplo: “Necessitamos de que você confirme a presença.” (Objeto indireto do verbo “necessitamos”.)
Completiva Nominal: completa o sentido de um nome (substantivo, adjetivo ou advérbio) da oração principal.
Exemplo: “Tenho certeza de que ele virá.” (Complementa o substantivo “certeza”.)
Predicativa: funciona como predicativo do sujeito da oração principal.
Exemplo: “A verdade é que ele mentiu.” (Oração subordinada funciona como predicativo de “verdade”.)
Apositiva: funciona como aposto, explicando ou desenvolvendo um termo anterior.
Exemplo: “Tive um desejo: que tudo acabasse logo.” (A oração explica o “desejo”.)
8.3 – Orações Subordinadas Adjetivas
As orações subordinadas adjetivas funcionam como um adjetivo, isto é, caracterizam um substantivo da oração principal. São introduzidas, geralmente, por pronomes relativos como: que, quem, o qual, a qual, cujo, onde.
Tipos de Orações Adjetivas:
Restritivas: limitam ou restringem o sentido do substantivo que acompanham. Não são isoladas por vírgulas.
Exemplo: “Os alunos que estudaram passaram na prova.” (Nem todos os alunos — apenas os que estudaram.)
Explicativas: acrescentam uma informação adicional sobre o substantivo, sem restringi-lo. São isoladas por vírgulas.
Exemplo: “Os alunos, que estudaram, passaram na prova.” (Todos os alunos estudaram e todos passaram.)
8.4 – Orações Subordinadas Adverbiais
Estas orações exercem o papel de adjunto adverbial, ou seja, modificam o sentido de um verbo, adjetivo ou advérbio, expressando circunstâncias como causa, condição, concessão, comparação, tempo etc.
Principais tipos de Orações Adverbiais:
Causais: expressam causa. Conjunções: porque, visto que, já que, como, uma vez que, porquanto.
Exemplo: “Saímos cedo porque estava chovendo.”
Concessivas: indicam contraste, oposição inesperada. Conjunções: embora, ainda que, mesmo que, se bem que.
Exemplo: “Embora estivesse cansado, continuou trabalhando.”
Consecutivas: indicam consequência. Conjunções: tanto que, de forma que, de modo que, que (precedido de tal, tanto).
Exemplo: “Estudou tanto que passou em primeiro lugar.”
Condicionais: indicam condição. Conjunções: se, caso, contanto que, desde que.
Exemplo: “Se chover, cancelaremos o evento.”
Comparativas: estabelecem comparação. Conjunções: como, que, do que, assim como.
Exemplo: “Ele corre como um atleta profissional.”
Conformativas: expressam conformidade. Conjunções: conforme, segundo, como, consoante.
Exemplo: “Conforme o regulamento, é proibido fumar aqui.”
Finais: indicam finalidade. Conjunções: para que, a fim de que, porque (com sentido de finalidade).
Exemplo: “Estudou bastante para que fosse aprovado.”
Proporcionais: indicam proporção. Conjunções: à medida que, à proporção que, quanto mais... mais.
Exemplo: “À medida que envelhecia, tornava-se mais sábio.”
Temporais: indicam tempo. Conjunções: quando, enquanto, assim que, logo que, antes que, depois que.
Exemplo: “Quando o sol nasceu, os pássaros começaram a cantar.”
8.5 – Orações Reduzidas
As orações subordinadas reduzidas são orações subordinadas sem conjunção e com o verbo em forma nominal (infinitivo, gerúndio ou particípio). Elas equivalem a orações desenvolvidas, mas têm estrutura mais concisa.
Formas de Orações Reduzidas:
De Infinitivo: verbo em infinitivo, sem conjunção.
Exemplo: “É importante estudar todos os dias.” (Equivale a: “que se estude todos os dias”.
De Gerúndio: verbo no gerúndio.
Exemplo: “Estudando com afinco, ele foi aprovado.” (Equivale a: “se ele estudasse com afinco”.)
De Particípio: verbo no particípio.
Exemplo: “Feita a prova, saíram todos.” (Equivale a: “depois que a prova foi feita”.)
As orações reduzidas assumem funções sintáticas semelhantes às das orações desenvolvidas (subordinadas substantivas, adjetivas ou adverbiais), sendo a distinção formal a ausência da conjunção e o uso do verbo em forma nominal.
O período composto é uma das maiores riquezas da construção sintática da língua portuguesa, pois permite complexidade, nuance e refinamento na expressão. Ao dominar as relações entre orações — sejam coordenadas ou subordinadas —, o estudante passa a escrever e interpretar com maior clareza, precisão e profundidade.
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Aula 9 — Concordância Verbal
9.1 - O Que é Concordância Verbal?
Concordância verbal é a relação gramatical que se estabelece entre o verbo e o sujeito da oração. O verbo deve concordar com o sujeito em número (singular/plural) e pessoa (1ª, 2ª, 3ª).
Exemplos básicos:
Eu estudo todos os dias. → sujeito “eu” (1ª pessoa do singular) exige o verbo na 1ª pessoa do singular: “estudo”.
Eles estudam todos os dias. → sujeito “eles” (3ª pessoa do plural) exige o verbo na 3ª pessoa do plural: “estudam”.
Essa é a regra geral da concordância verbal:
O verbo concorda com o sujeito em número e pessoa.
Mas a riqueza da língua portuguesa está nas situações especiais, nos casos em que o sujeito é composto, elíptico, indeterminado ou posposto ao verbo.
Vamos explorar todos os casos, com exemplos e observações importantes.
9.2 - Casos de Concordância Verbal
9.2.1 - Sujeito simples
Quando há apenas um núcleo no sujeito, o verbo concorda com ele em número e pessoa.
O menino correu.
A professora explicava bem.
Tu estudas com afinco.
Obs: Mesmo com palavras intercaladas ou longas estruturas, o núcleo do sujeito é o que define a concordância.
O grupo de alunos da escola estava animado.
Núcleo: grupo (singular) → verbo no singular.
9.2.2 - Sujeito composto
Quando há mais de um núcleo no sujeito, observe:
a) Núcleos ligados por “e” → verbo no plural
Carlos e João saíram cedo.
O vento e a chuva destruíram a cidade.
b) Núcleos ligados por “e”, mas representam uma só ideia → verbo no singular
Pão e queijo é tudo de que preciso.
Seu esforço e dedicação foi admirável.
(Expressam uma ideia única, um todo.)
c) Núcleos ligados por “ou”
Se houver exclusão (ou um ou outro): verbo no singular.
João ou Pedro será o escolhido.
Se houver inclusão (um ou outro pode ser): verbo no plural.
João ou Pedro sempre chegam cedo.
d) Sujeito composto posposto (depois do verbo)
Verbo pode ficar no singular ou plural, mas o plural é preferível quando o sujeito não causa ambiguidade.
Chegaram o pai e o filho. (mais natural)
Chegou o pai e o filho. (também aceito)
Obs: Se houver risco de ambiguidade, use o plural.
9.2.3 - Verbo antes do sujeito
Quando o verbo vem antes do sujeito, geralmente a concordância obedece à lógica da clareza.
Havia muitas pessoas na praça. (verbo impessoal — veremos a seguir)
Faltaram professores na reunião. → sujeito plural depois do verbo.
Faltou um professor na reunião. → sujeito singular depois do verbo.
9.3 - Concordância com Sujeito Indeterminado
9.3.1 - Verbo na 3ª pessoa do singular
Vive-se bem aqui.
Diz-se que haverá mudanças.
Aqui, o sujeito é indeterminado. O verbo permanece na 3ª pessoa do singular.
9.4 - Concordância com Verbos Impessoais
São verbos sem sujeito. Neles, o verbo fica sempre no singular.
9.4.1 - Verbo “haver” com sentido de existir ou acontecer
Havia muitas pessoas.
Houve problemas na empresa.
Nunca use “haviam pessoas”.
Dica: Se puder trocar “haver” por “existir”, é impessoal → singular.
Errado: Haviam muitos casos.
Certo: Havia muitos casos.
9.4.2 - Verbo “fazer” indicando tempo decorrido
Faz cinco anos que nos vimos.
Fazia muito calor.
Sempre no singular, mesmo com numerais no plural.
9.5 - Verbos que variam com o sujeito ou com o predicativo
9.5.1 - Verbo “ser”
Quando o verbo “ser” liga termos de números diferentes, a concordância segue alguns critérios:
a) Ligando sujeito a predicativo — verbo concorda com o predicativo se este vier antes
Cinco minutos é o suficiente. (predicativo antes → singular)
O suficiente são cinco minutos. (sujeito depois → plural)
b) Com datas ou horas
Hoje são 5 de maio.
Eram duas horas.
Se o sujeito for palavra no singular:
Hoje é dia 6.
É uma hora.
9.6 - Concordância com Pronome de Tratamento
Os pronomes de tratamento exigem verbo na 3ª pessoa.
Vossa Excelência está enganada.
Vossa Senhoria enviou a carta.
Apesar de “Vossa” estar na 2ª pessoa, a forma é tratada como 3ª pessoa gramatical.
9.7 - Concordância com Coletivos
Se o coletivo estiver no singular, o verbo pode ir para o singular ou plural, dependendo da ênfase:
A multidão aplaudiu. (ênfase na coletividade como uma unidade)
A multidão aplaudiram. (ênfase nos indivíduos da multidão)
Ambas as formas são aceitas, mas o singular é mais comum.
9.8 - Casos Particulares e Dúvidas Frequentes
9.8.1 - “Mais de um”
Verbo no singular.
Mais de um aluno faltou.
Mas se houver ação recíproca, usa-se o plural:
Mais de um aluno se agrediram. (houve troca de ações)
9.8.2 - “Um dos que” / “um dos quais”
Verbo no plural.
Ele é um dos que mais trabalham.
Você é um dos que entendem.
Porque se refere ao grupo: “os que”.
9.8.3 - Sujeito com porcentagem
30% dos alunos faltaram.
10% da população está desempregada.
A concordância varia conforme o substantivo a que a porcentagem se refere.
9.9 - Exemplos para Fixação (com explicações)
A maioria dos alunos chegou cedo.
→ “maioria” é singular → verbo no singular.
Os alunos e os professores protestaram.
→ Sujeito composto → verbo no plural.
Havia muitos livros na estante.
→ Verbo impessoal → sempre no singular.
Faz três meses que ela saiu.
→ Verbo impessoal de tempo → singular.
Mais de um deputado votou contra.
→ “Mais de um” → verbo no singular.
Um dos estudantes que mais reclamam.
→ “os que” → verbo no plural.
Devem chegar os convidados e o anfitrião.
→ Sujeito posposto composto → verbo no plural.
Faltou luz e água.
→ Sujeito composto com ideia de unidade → verbo pode ficar no singular.
9.10 - Dicas Finais
Identifique sempre o sujeito primeiro.
Verifique quem pratica a ação (não se deixe enganar por palavras próximas ao verbo que não são o núcleo do sujeito).
Lembre-se de que ordem da frase pode enganar, mas o verbo deve concordar com o sujeito real, não com o termo mais próximo.
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Aula 10 – Concordância Nominal
1. Conceito Geral
Concordância nominal é a relação de harmonia que se estabelece entre o substantivo e os termos que a ele se ligam, fazendo com que esses termos variem em gênero (masculino/feminino) e número (singular/plural), de acordo com o substantivo a que se referem.
Esses termos que concordam com o substantivo são chamados de termos determinantes ou modificadores, principalmente:
Artigos: o, a, os, as, um, uma, uns, umas
Adjetivos
Pronomes adjetivos (meu, este, aquele, algum, nenhum etc.)
Numerais
Locuções adjetivas
Exemplo básico:
O menino inteligente
"menino" = substantivo (masculino, singular)
"o" e "inteligente" concordam com ele: masculino, singular
Se o substantivo muda, os outros mudam com ele:
A menina inteligente
Os meninos inteligentes
As meninas inteligentes
Regra central:
Tudo o que se refere ao substantivo deve concordar com ele em gênero e número.
2. Elementos que Participam da Concordância Nominal
2.1 Substantivo
É o núcleo da concordância. Ele manda; os outros obedecem.
Exemplo:
casa bonita
casas bonitas
2.2 Artigo
Concorda diretamente com o substantivo:
o livro / os livros
a flor / as flores
2.3 Adjetivo
Concorda com o substantivo que caracteriza:
homem honesto
mulher honesta
homens honestos
mulheres honestas
2.4 Pronomes Adjetivos
Também acompanham o substantivo:
este carro
esta casa
estes carros
estas casas
2.5 Numerais
Também entram na concordância:
duas mesas
3. Casos Simples de Concordância Nominal
Quando há apenas um substantivo, tudo é fácil:
A criança feliz
As crianças felizes
Meu amigo leal
Minhas amigas leais
Regra:
Cada termo concorda com o substantivo mais próximo e ao qual se refere.
4. Concordância com Mais de Um Substantivo
Agora começa a parte mais delicada.
Quando um adjetivo se refere a dois ou mais substantivos, existem duas possibilidades: concordância com o mais próximo ou concordância no plural.
4.1 Adjetivo Depois dos Substantivos
Exemplo:
Pai e mãe dedicados.
Aqui, o adjetivo vem depois dos dois substantivos.
Regra geral:
O adjetivo vai para o plural e assume o gênero masculino se houver substantivos de gêneros diferentes.
Exemplos:
Pai e mãe dedicados (masculino plural)
Homem e mulher corajosos
Mesa e cadeira quebradas (ambos femininos)
Se todos forem femininos:
Casa e escola novas
Menina e professora cansadas
4.2 Adjetivo Antes dos Substantivos
Quando o adjetivo vem antes:
Belo pai e mãe
Bela mãe e filha
Regra:
O adjetivo concorda com o substantivo mais próximo.
Exemplos:
Belo pai e mãe
Bela mãe e filha
5. Concordância com Substantivos de Gênero Diferente
Quando há substantivos de gêneros diferentes:
O aluno e a aluna dedicados
O carro e a moto novos
Masculino plural domina:
Misturou masculino e feminino, o plural vai para o masculino.
6. Adjetivo Referindo-se a Palavras Sinônimas
Quando dois substantivos têm sentido parecido:
Tristeza e melancolia profundas
Pode-se usar:
plural: profundas
ou concordar com o mais próximo: profunda melancolia e tristeza
7. Casos com "É PROIBIDO", "É NECESSÁRIO", "É BOM"
Quando essas expressões vêm sem artigo antes do substantivo, ficam invariáveis:
É proibido entrada.
É necessário paciência.
É bom saúde.
Mas se houver artigo, concordam:
É proibida a entrada.
É necessária a paciência.
É boa a saúde.
8. Concordância com Palavras que Indicam Quantidade
8.1 Muito, Pouco, Bastante, Demais
Funcionam como adjetivos ou advérbios.
Como adjetivo: concorda
Muitas pessoas
Poucos dias
Como advérbio: não varia
Trabalhou muito
Falou pouco
9. Meio / Meia
Como adjetivo: concorda
Meia garrafa
Meias palavras
Como advérbio (significa "um pouco"): não varia
Ela está meio cansada
Eles estão meio tristes
10. Mesmo / Mesma
Como pronome ou adjetivo: varia
A mesma pessoa
Os mesmos erros
Como advérbio (significa "até", "realmente"): não varia
Ele mesmo fez isso.
Ela mesma resolveu.
11. Anexo / Anexa
Concorda com o substantivo:
Segue anexa a foto.
Seguem anexos os documentos.
12. Obrigado / Obrigada
Concorda com quem fala:
Eu, homem: Obrigado.
Eu, mulher: Obrigada.
13. Quite / Quite(s)
Concorda com o sujeito:
Estou quite com você.
Estamos quites com você.
14. Incluso / Inclusa
Concorda com o substantivo:
Incluso o valor.
Inclusas as taxas.
15. Só / Sós
Como adjetivo (sozinho): varia
Ele está só.
Eles estão sós.
Como advérbio (somente): não varia
Eles só querem paz.
16. Bastante(s)
Como adjetivo: varia
Bastantes livros
Como advérbio: não varia
Estudou bastante
17. Concordância em Expressões com "É"
Quando o sujeito vem depois do verbo "ser":
É proibida a entrada.
São proibidas as entradas.
O verbo concorda com o sujeito real.
18. Resumo Geral das Regras Fundamentais
Tudo que se refere ao substantivo concorda com ele.
Dois substantivos → adjetivo pode ir ao plural.
Gêneros diferentes → masculino plural.
Adjetivo antes → concorda com o mais próximo.
Sem artigo → expressões ficam invariáveis.
Advérbios não variam.
Adjetivos variam.
Concordância nominal não é decorar regras. É compreender que a língua funciona por relações: um termo central (substantivo) governa os outros. Quando você entende quem manda na frase, a concordância deixa de ser um mistério.
Dominar a concordância nominal é dominar a harmonia da língua é fazer com que as palavras caminhem juntas, sem conflito, e sem quebra de sentido.
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Aula 11 – Regência Verbal e Nominal
1. Conceito Geral de Regência
Regência é o estudo da relação de dependência que certos termos estabelecem com outros dentro da frase, exigindo ou não a presença de preposição.
Quando um verbo ou um nome (substantivo, adjetivo ou advérbio) pede complemento, ele pode:
Não exigir preposição
Exigir uma preposição específica
Quem manda é o termo regente (verbo ou nome). Quem obedece é o termo regido (complemento).
Exemplos iniciais:
Gosto de música. → o verbo "gostar" exige a preposição "de".
Amo você. → o verbo "amar" não exige preposição.
Portanto:
Regência = quem manda + o que ele exige para se completar.
2. Regência Verbal
Regência verbal estuda como os verbos se ligam aos seus complementos.
Todo verbo pode ser:
Intransitivo (não pede complemento)
Transitivo direto (pede complemento sem preposição)
Transitivo indireto (pede complemento com preposição)
Transitivo direto e indireto (pede dois complementos)
2.1 Verbo Intransitivo
Não precisa de complemento:
Ele morreu.
A criança nasceu.
Mas cuidado: às vezes parece não ter complemento, mas tem sentido completo.
2.2 Verbo Transitivo Direto (VTD)
Pede complemento sem preposição.
Exemplos:
Comprei um livro.
Vi o filme.
Encontrei meu amigo.
Pergunta: o quê? quem?
Comprei o quê? → um livro
2.3 Verbo Transitivo Indireto (VTI)
Pede complemento com preposição obrigatória.
Exemplos:
Gosto de você.
Preciso de ajuda.
Confio em você.
Pergunta: de quem? de quê? em quem? em quê?
2.4 Verbo Transitivo Direto e Indireto (VTDI)
Pede dois complementos: um sem preposição e outro com preposição.
Exemplos:
Dei o livro ao amigo.
Entreguei a carta à professora.
Perguntas:
Dei o quê? → o livro (direto)
Dei a quem? → ao amigo (indireto)
3. Verbos de Regência Importante
Agora entram os verbos que mais causam erro.
3.1 Assistir
Tem dois sentidos principais:
Ver, presenciar → exige "a"
Assisti ao filme.
Assisti à aula.
Dar assistência → sem preposição
O médico assistiu o paciente.
3.2 Chegar
Exige preposição "a" (norma culta):
Cheguei a casa.
Cheguei ao trabalho.
"Chegar em" é uso popular, não recomendado em escrita formal.
3.3 Ir
Exige preposição "a" ou "para":
Vou ao cinema.
Vou para casa.
"Em" não é regência culta:
Errado: Vou no cinema.
3.4 Preferir
Não aceita "do que":
Prefiro café a chá.
Prefiro estudar a sair.
Estrutura certa:
preferir X a Y
3.5 Esquecer / Lembrar
Sem pronome:
Esqueci o livro. (direto)
Lembrei o fato.
Com pronome:
Esqueci-me do livro.
Lembrei-me do fato.
3.6 Agradar
Fazer agrado → direto
Ele agradou o chefe.
Ser agradável → indireto com "a"
O filme agradou ao público.
3.7 Obedecer / Desobedecer
Sempre com "a":
Obedeço ao pai.
Desobedeceu às regras.
3.8 Simpatizar / Antipatizar
Exigem "com":
Simpatizo com você.
Antipatizo com mentiras.
3.9 Visar
Mirar → direto
O soldado visou o alvo.
Ter como objetivo → indireto com "a"
Visamos ao sucesso.
4. Regência Nominal
Regência nominal estuda como substantivos, adjetivos e advérbios exigem complementos com preposição.
Exemplo:
Amor a Deus
Medo de escuro
Capaz de tudo
5. Substantivos com Regência Importante
Amor a / por
Ódio a / por
Medo de
Respeito a / por
Obediência a
Necessidade de
Exemplos:
Amor ao próximo
Medo de altura
Respeito aos pais
6. Adjetivos com Regência Importante
Alguns adjetivos pedem preposição:
Orgulhoso de
Capaz de
Incapaz de
Favorável a
Contrário a
Fiel a
Grato a
Ansioso por / para
Exemplos:
Orgulhoso do filho
Favorável à mudança
Fiel aos princípios
7. Advérbios com Regência
Alguns advérbios também pedem complemento:
Longe de
Perto de
Dentro de
Fora de
Exemplos:
Longe da cidade
Perto de casa
8. Diferença entre Regência Verbal e Nominal
Regência verbal: o verbo manda.
Regência nominal: o nome manda.
Exemplo:
Ele precisa de ajuda. → regência verbal
Ele tem necessidade de ajuda. → regência nominal
9. Regência e Crase (Ligação Direta)
Regência é a base da crase.
Só há crase quando:
Verbo ou nome exige preposição "a"
Palavra seguinte aceita artigo feminino "a"
Exemplo:
Vou à escola.
Vou a (regência do verbo ir)
a escola (artigo feminino)
a + a = à
10. Erros Clássicos de Regência
Errado: Prefiro isso do que aquilo.
Certo: Prefiro isso a aquilo.Errado: Assisti o filme. (no sentido de ver)
Certo: Assisti ao filme.Errado: Vou no mercado.
Certo: Vou ao mercado.
11. Tabela Mental de Verbos-Chave
Gostar → de
Precisar → de
Confiar → em
Acreditar → em
Obedecer → a
Responder → a
Simpatizar → com
Preferir → a
Visar (objetivo) → a
Regência não é entender quem manda na frase. Se você identifica o termo regente, você descobre automaticamente a forma certa do complemento.
A língua não funciona por acaso: ela funciona por hierarquia. Quem governa, exige. Quem é regido, obedece.
Aula 12 – Crase
1. Conceito Fundamental
Crase é a fusão de dois sons iguais: a + a = à.
Mas esses dois "a" não são quaisquer. Eles vêm de lugares diferentes:
Um "a" vem da regência (verbo ou nome que exige preposição "a")
O outro "a" vem do artigo feminino ou do pronome demonstrativo "a(s)"
Portanto:
Só existe crase quando há: preposição "a" + artigo feminino "a" (ou "as") = à / às
Exemplo-base:
Vou a a escola → Vou à escola
"ir" exige preposição "a"
"escola" admite artigo feminino: a escola
Sem essas duas condições juntas, não existe crase.
2. Os Três Passos para Decidir a Crase
Sempre faça este teste mental:
O termo anterior exige preposição "a"?
O termo seguinte aceita artigo feminino "a"?
Se juntar os dois, forma "à"?
Se qualquer resposta for "não", não há crase.
Exemplo: "Cheguei a casa."
"Chegar" exige "a"? Sim (quem chega, chega a algum lugar).
"Casa" aceita artigo aqui? Não.
Quando "casa" significa o nosso próprio lar e não está acompanhada de uma característica (como "casa de praia" ou "casa do João"), ela rejeita o artigo.
Logo: Sem crase.
3. Casos Obrigatórios de Crase
3.1 Diante de Substantivos Femininos que Admitem Artigo
Fui à escola.
Voltei à cidade.
Obedeci à regra.
Por quê?
Verbo exige "a"
Substantivo aceita "a"
3.2 Diante de Locuções Femininas
Locuções adverbiais, prepositivas e conjuntivas femininas levam crase:
à tarde
à noite
à tarde
à medida que
à procura de
à frente de
à esquerda de
Exemplo:
Ele saiu à noite.
3.3 Diante de Nomes de Lugar Femininos que Usam Artigo
Teste: volto de + lugar → se vier "da", tem artigo.
Vou à Bahia. (Volto da Bahia = de + a)
Vou à França. (Volto da França = de + a)
Teste: Vou a (preposição) + a (artigo da Bahia) = Vou à Bahia.
3.4 Diante de "Aquela(s)", "Aquele(s)", "Aquilo"
Aqui a crase ocorre entre a preposição "a" e o "a" inicial do pronome demonstrativo.
Refiro-me àquele problema.
Entreguei o livro àquela aluna.
Chegamos àquilo que esperávamos.
4. Casos Proibidos de Crase
4.1 Diante de Palavras Masculinas
Vou a pé.
Cheguei a cavalo.
Fui a pé, não "à pé".
Masculino não tem artigo "a", logo não há crase.
4.2 Diante de Verbos
Começou a estudar.
Voltou a falar.
Verbo não aceita artigo.
4.3 Diante de Pronomes Pessoais, de Tratamento e Indefinidos
Entreguei a ela.
Falei a Vossa Excelência.
Dei o livro a alguém.
Esses pronomes não aceitam artigo feminino.
4.4 Diante de Nomes de Lugar que Não Usam Artigo
Vou a Roma. (volto de Roma)
Vou a Paris. (volto de Paris)
Roma é histórica. (Ninguém diz "A Roma é histórica")
Paris é luz. (Ninguém diz "A Paris é luz")
Teste: Como você volta de Roma (apenas preposição), significa que o nome "Roma" não aceita o artigo "a".
Resultado: Vou a (preposição) + Roma (sem artigo) = Vou a Roma. (Sem crase).
Se não aceita artigo, não há crase.
4.5 Antes de Numerais
Daqui a duas horas.
Chegou a cinco metros de mim.
Numerais não admitem artigo feminino nesse uso.
5. Casos Facultativos de Crase
5.1 Diante de Nomes Próprios Femininos
Entreguei o presente a Maria.
Entreguei o presente à Maria.
Depende se você usa ou não artigo antes do nome.
5.2 Diante de Pronomes Possessivos Femininos
Fui a minha casa.
Fui à minha casa.
Artigo é opcional antes de possessivo.
6. Crase com "Casa" e "Terra"
Sem determinante:
Cheguei a casa.
Voltei a terra.
Com determinante:
Cheguei à casa de minha mãe.
Voltou à terra natal.
7. Crase em Expressões de Distância
O mercado fica a três metros daqui.
Mas:
O mercado fica à distância de três metros.
8. Crase em Horas
Diante de horas femininas determinadas:
A reunião é às duas horas.
Cheguei às oito.
9. Crase Antes de "Que" e "Qual"
Quando há "a qual" ou "a que" com artigo feminino:
A rua à qual me referi.
As regras às quais obedeci.
10. Testes Práticos
10.1 Teste do Masculino
Troque a palavra feminina por uma masculina equivalente:
Vou à escola → Vou ao colégio
Se vira "ao", então era "à".
10.2 Teste do "Volto de"
Vou à Bahia → volto da Bahia
Vou a Roma → volto de Roma
11. Erros Clássicos
Errado: À partir de hoje.
Certo: A partir de hoje.Errado: Vou à pé.
Certo: Vou a pé.Errado: Entreguei à ela.
Certo: Entreguei a ela.
12. Ligação com Regência
Sem regência, não há crase.
Gosto de você. → nunca terá crase.
Vou a você. → só teria crase se "você" aceitasse artigo, o que não aceita.
Crase é consequência direta da regência + artigo.
13. Resumo Essencial
Só há crase quando:
Termo anterior exige "a"
Termo seguinte aceita "a"
Junta: à
Não há crase:
Masculino
Verbo
Pronomes que não admitem artigo
Nomes sem artigo
A Crase é mecânica. Ela só existe quando duas engrenagens se encontram: regência e artigo.
Dominar a crase é dominar um dos pontos mais temidos da língua, não pela dificuldade real, mas pela falta de método. Com método, ela se torna previsível, controlável e exata.
Aula 13 – Pontuação
1. Conceito Geral
Pontuação é o sistema de sinais gráficos que organiza a escrita, marcando pausas, entonações, limites de ideias e relações sintáticas.
Ela não serve apenas para “pausar a leitura”, mas para estruturar o pensamento no texto.
Compare:
Vamos jantar, vovô. (Você está chamando o seu avô para comer).
Vamos jantar vovô. (Sem a vírgula, o vovô vira o prato principal).
A pontuação muda o sentido, não só o ritmo.
2. A Vírgula (,)
A vírgula é o sinal mais usado — e mais mal usado.
Ela separa termos e orações, mas nunca separa o que é essencial.
2.1 Nunca se usa vírgula entre:
Sujeito e verbo:
Errado: O menino, correu.
Certo: O menino correu.
Verbo e complemento:
Errado: Comprou, um livro.
Certo: Comprou um livro.
Nome e complemento nominal:
Errado: Necessidade, de ajuda.
Certo: Necessidade de ajuda.
2.2 Usa-se vírgula para separar termos de mesma função
Comprei pão, leite, queijo e café.
Ele é honesto, trabalhador e humilde.
2.3 Vírgula para isolar elementos deslocados
Quando a ordem direta é quebrada:
Ordem direta: Sujeito + Verbo + Complemento
Ontem, eu estudei muito.
Na escola, ele aprendeu bastante.
2.4 Vocativo
Vocativo é o chamamento:
Maria, venha cá.
Amigos, prestem atenção.
2.5 Aposto explicativo
Paulo, meu amigo de infância, mudou-se.
2.6 Orações explicativas
Introduzidas por: que, porque, pois, o qual, a qual (explicativos)
Ele faltou, porque estava doente.
3. Ponto Final (.)
Marca o fim de uma ideia completa.
Estudei muito hoje.
A prova será amanhã.
Não se usa ponto final em títulos ou cabeçalhos formais.
4. Ponto e Vírgula (;)
Marca uma pausa intermediária entre vírgula e ponto.
4.1 Para separar itens longos ou já pontuados:
Trouxe: pão, que estava fresco; leite, que era integral; frutas, que estavam maduras.
4.2 Para separar orações coordenadas longas:
Estudei muito; mesmo assim, não fiquei satisfeito.
5. Dois-Pontos (:)
Introduzem:
Explicação
Esclarecimento
Enumeração
Citação
Exemplos:
Só quero uma coisa: paz.
Ele disse: “Voltarei amanhã.”
Trouxe três coisas: pão, leite e café.
6. Reticências (...)
Indicam:
Suspensão de pensamento
Dúvida
Ironia
Emoção contida
Eu queria dizer... mas não consegui.
7. Ponto de Interrogação (?)
Usado em perguntas diretas:
Você entendeu?
Onde você mora?
Não se usa em perguntas indiretas:
Quero saber onde você mora.
8. Ponto de Exclamação (!)
Marca emoção, ordem, surpresa:
Pare agora!
Que absurdo!
Evite excesso: texto sério não grita.
9. Parênteses ( )
Inserem comentário, explicação ou informação acessória:
Ele nasceu em 1990 (ano da Copa).
10. Travessão (—)
10.1 Diálogo
— Você vem?
— Vou sim.
10.2 Interrupção ou comentário:
Ele — apesar de tudo — continuou.
11. Aspas (“ ”)
Usadas para:
Citação
Ironia
Destaque
Ele disse: “Não voltarei.”
Ele é muito “honesto”. (ironia)
12. Hífen (-)
Não é sinal de pontuação no sentido clássico, mas liga palavras:
segunda-feira
guarda-chuva
Regras seguem o Acordo Ortográfico.
13. Pontuação e Sintaxe
Pontuação depende da estrutura da frase.
Exemplo:
Quando eu cheguei, ele saiu.
Ele saiu quando eu cheguei.
A vírgula aparece quando a oração é deslocada.
14. Erros Clássicos
Vírgula entre sujeito e verbo:
Errado: Os alunos, estudaram.
Falta de vírgula no vocativo:
Errado: João venha cá.
Uso excessivo de exclamação:
Errado: Que dia lindo!!!
15. Pontuação e Sentido
Compare:
Não, espere.
Não espere.
A pontuação decide o significado.
16. Pontuação em Listas e Textos Formais
Em listas verticais, pode-se usar ponto ou não, desde que haja padrão.
Exemplo:
Itens necessários:
pão;
leite;
café.
Pontuar é compreender a estrutura da frase.
Quem entende sintaxe, pontua bem.
Quem pontua bem, escreve com clareza.
Pontuação é a arquitetura invisível do texto: não aparece como protagonista, mas sustenta tudo.
Aula 14 – Semântica
1. O que é Semântica
Semântica é a parte da linguística que estuda o sentido das palavras, das expressões e dos enunciados.
Enquanto a gramática estuda forma e estrutura, a semântica estuda:
O que as palavras significam
Como o sentido muda conforme o contexto
Como o mesmo enunciado pode ter interpretações diferentes
Exemplo:
Ele é frio.
Pode significar:Que sente frio
Que é insensível
A forma é a mesma. O sentido muda pelo contexto.
2. Sentido Literal e Sentido Figurado
2.1 Sentido Literal (Denotativo)
É o sentido básico, de dicionário.
A água está fria.
Ele quebrou o copo.
2.2 Sentido Figurado (Conotativo)
É o sentido simbólico, metafórico, expressivo.
Ele é frio. (insensível)
Ela tem um coração de pedra. (não é literal)
A língua vive disso: misturar o literal com o figurado.
3. Polissemia
Uma mesma palavra com vários sentidos.
Exemplo: “banco”
Banco de sentar
Banco financeiro
Banco de areia
A palavra é a mesma; o sentido vem do contexto.
4. Ambiguidade
Quando uma frase permite mais de uma interpretação.
Exemplo:
Vi o homem com o binóculo.
Quem está com o binóculo?
Eu?
O homem?
A ambiguidade pode ser erro ou recurso estilístico.
Forma de evitar:
Reorganizar a frase
Acrescentar informação
5. Sinonímia
Palavras de sentido próximo.
Exemplos:
Feliz / contente
Rápido / veloz
Não existem sinônimos perfeitos em todos os contextos.
6. Antonímia
Palavras de sentido oposto.
Claro / escuro
Forte / fraco
Amor / ódio
7. Homônimos
São palavras que possuem a mesma estrutura (som ou escrita), mas significados completamente diferentes. Dividem-se em:
7.1 Homógrafos (Igual escrita, som diferente)
A grafia é a mesma, mas a pronúncia muda de acordo com o sentido.
O gosto (substantivo / som fechado: gôsto) / Eu gosto (verbo / som aberto: gósto)
O almoço (substantivo / som fechado) / Eu almoço (verbo / som aberto)
O começo (substantivo) / Eu começo (verbo)
7.2 Homófonos (Igual som, escrita diferente)
O som é idêntico, mas a grafia e o sentido mudam.
Sessão (tempo de uma reunião/filme) / Seção (divisão ou repartição) / Cessão (ato de ceder/dar)
Acento (sinal gráfico) / Assento (lugar de sentar)
Conserto (reparo) / Concerto (musical)
8. Parônimos
São palavras parecidas tanto na escrita quanto na pronúncia, o que costuma causar confusão, mas possuem sentidos distintos.
Descrição (ato de descrever algo) / Discrição (ser discreto/reservado)
Eminente (elevado, ilustre) / Iminente (que está prestes a acontecer)
Ratificar (confirmar) / Retificar (corrigir)
Tráfego (trânsito) / Tráfico (comércio ilegal)
9. Campo Semântico
É o conjunto de palavras que se relacionam entre si por pertencerem a um mesmo tema ou universo de ideias.
Campo semântico de “Mar”: onda, areia, barco, sal, mergulho, vento.
Campo semântico de “Escola”: aluno, professor, lousa, nota, livro, estudar.
10. Hierarquias de Sentido
10.1 Hiperonímia (Geral) e Hiponímia (Específico)
Hiperônimo (O "Tudo"): Animal, Flor, Veículo.
Hipônimo (A "Parte"): Cachorro, Rosa, Carro.
Exemplo: "A rosa é um tipo de flor."
11. Valor Semântico das Classes Gramaticais
A classe da palavra altera o que ela caracteriza:
Ele corre rápido. (Advérbio: caracteriza a ação de correr).
Ele é rápido. (Adjetivo: caracteriza o sujeito, a pessoa).
Nota: Mudar a classe muda o "alvo" da característica.
12. Valor Semântico dos Tempos Verbais
O tempo verbal não indica apenas o "quando", mas o "como" a ação aconteceu:
Ele estudou: Ação finalizada, pontual (Pretérito Perfeito).
Ele estudava: Ação que se repetia ou durava no passado (Pretérito Imperfeito).
Ele estudará: Intenção ou certeza futura (Futuro do Presente).
13. Contexto e Pragmática
O sentido real de uma frase depende da situação:
Quem fala / Para quem / Onde / Intenção.
Exemplo: "Você é incrível!"
No palco (Elogio sincero).
Após um erro bobo (Ironia).
14. Pressupostos e Subentendidos
14.1 Pressuposto (A pista está na frase):
É uma informação óbvia escondida por uma palavra (como "parou", "ainda", "voltou").
Frase: "Maria voltou a estudar."
Pressuposto: Ela já havia estudado antes.
14.2 Subentendido (A pista está no ar):
É o que sugerimos sem dizer. Depende da interpretação do outro.
Frase: "Nossa, está ficando tarde..."
Subentendido: "Quero que você vá embora" ou "Preciso dormir".
15. Ironia
Sugerir o oposto do que as palavras dizem, geralmente para criticar ou brincar.
Exemplo: "Parabéns pelo 2 na prova! Você é um gênio."
16. Atos de Fala (Sentido e Intenção)
A forma da frase pode esconder sua função real:
"Pode passar o sal?"
Gramaticalmente: Pergunta sobre sua capacidade física.
Semanticamente: Um pedido (ordem educada).
17. Evolução Semântica
As palavras são vivas e mudam de sentido com o tempo.
Legal: Antes apenas "dentro da lei"; hoje, algo "bom/bacana".
Você: Antes era "Vossa Mercê" (título de respeito); hoje é tratamento informal.
18. Problemas Semânticos
Pleonasmo Vicioso: Repetição desnecessária (Entrar para dentro, encarar de frente).
Ambiguidade: Frase com dois sentidos (O pai viu o filho no seu quarto - de quem era o quarto?).
Contradição: Ideias que se anulam (Um fogo gelado).
Semântica é o estudo do que realmente importa: o sentido.
Forma sem sentido é corpo sem alma.
Quem domina a semântica pensa com clareza, fala com intenção e entende além das palavras.
_____________________________________________________________________Aula 14.1 – Figuras de Linguagem
1. O que são Figuras de Linguagem
Figuras de linguagem são recursos expressivos usados para intensificar, modificar ou embelezar o sentido das palavras e das frases.
Elas não são “enfeite gratuito”: são formas profundas de organizar a percepção da realidade.
Enquanto a linguagem comum diz:
Ele está triste.
A linguagem figurada diz:
Ele carrega um inverno no peito.
A ideia é a mesma, mas o impacto é outro.
2. Classificação Geral
As figuras de linguagem costumam ser divididas em três grandes grupos:
Figuras de palavras (ou de semântica)
Figuras de pensamento
Figuras de construção (ou de sintaxe)
PARTE I – FIGURAS DE PALAVRAS
3. Metáfora
É uma figura de linguagem que usa uma palavra no lugar de outra, baseando-se em uma semelhança implícita (subentendida) entre elas. A comparação é tão direta que se torna uma afirmação.
Ele é uma fera no trabalho. (Significa que ele é agressivo e rápido como uma fera, mas a comparação não é dita).
Meu pai é uma rocha. (Significa que ele é forte, inabalável e resistente como uma rocha).
A vida é um palco. (Apresenta características da vida como se fossem as de um palco, sem o "como").
Diferença fundamental:
Na metáfora, não se usam conectivos comparativos (como, tal qual, assim como). A semelhança é subentendida e o sentido é transferido imediatamente.
4. Comparação (ou Símile)
É a aproximação de dois elementos baseada em uma característica comum entre eles. Diferente da metáfora, a comparação é explícita, ou seja, ela utiliza obrigatoriamente palavras de ligação (conectivos).
Conectivos comuns:
como, tal qual, assim como, que nem, feito, tal como, parece.
Exemplos:
"Ele é forte como um touro."
"Aquele rapaz é liso que nem sabonete."
"Seus olhos brilham tal qual diamantes."
"Dormia feito uma pedra."
Dica de ouro: Comparação vs. Metáfora
A comparação sempre deixa a "ponte" (o conectivo) à vista.
Comparação: "Ela é como uma flor." (Usa conectivo).
Metáfora: "Ela é uma flor." (Afirmação direta, sem conectivo).
5. Metonímia
Ocorre quando substituímos um termo por outro, desde que haja uma relação lógica, de proximidade ou de dependência entre eles. É uma forma de simplificar a fala sem perder o sentido.
Principais tipos:
O Autor pela Obra:
Exemplo: "Li Machado de Assis." (Você leu os livros de Machado).
A Parte pelo Todo:
Exemplo: "Tenho mil cabeças de gado." (O animal inteiro é contado pela cabeça).
Exemplo: "Ele precisava de um teto para morar." (O teto representa a casa inteira).
A Marca pelo Produto:
Exemplo: "Vou comprar Bombril." (A marca substitui o termo "lã de aço").
O Continente pelo Conteúdo:
Exemplo: "Bebi dois copos de água." (Você bebeu a água que estava dentro do copo).
O Instrumento pelo Agente:
Exemplo: "Ele é um bom garfo." (Refere-se a quem come muito ou aprecia comida).
Dica de ouro: Enquanto a Metáfora é uma comparação por semelhança (parece com), a Metonímia é uma substituição por contato ou associação (tem relação com).
6. Sinestesia
Mistura de sensações de sentidos diferentes.
Cheiro doce
Som áspero
Cor quente
7. Catacrese
Ocorre quando emprestamos o nome de algo para designar outra coisa, por não existir um termo específico na língua ou porque o termo original caiu em desuso. É um "empréstimo por necessidade".
Pé da mesa / Braço da cadeira: Como móveis não têm anatomia, "emprestamos" os nomes do corpo humano.
Dente de alho / Cabeça de alho: Uso de termos anatômicos para partes de vegetais.
Embarcar no avião: "Embarcar" vem de "barco", mas usamos para aviões, trens ou ônibus por falta de um verbo específico para cada um.
Dica para diferenciar:
Diferente da metáfora (que é poética e passageira), a catacrese é fixa. Nós não sentimos que estamos fazendo uma comparação ao dizer "pé da mesa"; para nós, esse já é o nome "comum" do objeto.
8. Perífrase (ou Antonomásia)
Ocorre quando substituímos o nome de uma pessoa, lugar ou objeto por uma expressão que ressalta suas características, feitos ou atributos famosos.
8.1 Antonomásia (Foco em Pessoas)
É o "apelido" respeitoso ou épico dado a uma personalidade.
O Rei do Futebol = Pelé.
O Poeta dos Escravos = Castro Alves.
A Rainha do Pop = Madonna.
8.2 Perífrase (Foco em Lugares ou Coisas)
É a expressão que identifica cidades, países ou seres.
A Cidade Maravilhosa = Rio de Janeiro.
A Terra da Garoa = São Paulo.
O Rei dos Animais = O leão.
O Ouro Negro = O petróleo.
Dica de ouro: A perífrase funciona como um "nome artístico" ou uma descrição que todo mundo reconhece imediatamente, evitando a repetição excessiva do nome original no texto.
PARTE II – FIGURAS DE PENSAMENTO
9. Hipérbole
É o uso de um exagero intencional para dar mais ênfase a um sentimento ou ação.
"Morri de rir."
"Já te falei um milhão de vezes!"
"Esperei uma eternidade."
10. Eufemismo
Ocorre quando trocamos um termo chocante, desagradável ou rude por uma expressão mais suave e polida.
Ele partiu desta para melhor (em vez de morreu).
Ele faltou com a verdade (em vez de mentiu).
Está em situação de rua ou sem recursos (formas mais respeitosas).
11. Ironia
Consiste em dizer o oposto do que se pensa, geralmente com um tom de crítica, humor ou sarcasmo.
"Que belo atraso você fez!"
"Parabéns pela nota zero, você é um gênio!"
12. Antítese
É a aproximação de palavras com sentidos opostos, mas que mantêm a lógica.
"O corpo é pequeno, mas a alma é grande."
"Amor e ódio convivem nele." (Os sentimentos existem ao mesmo tempo, mas não se anulam).
13. Paradoxo (ou Oximoro)
Diferente da antítese, o paradoxo une ideias que se contradizem e parecem impossíveis, criando um sentido novo e profundo.
"Um silêncio ensurdecedor." (Como o silêncio pode ensurdecer?).
"O amor é fogo que arde sem se ver."
"Uma triste alegria."
14. Personificação (ou Prosopopeia)
Atribui sentimentos, ações ou comportamentos humanos a objetos, animais ou seres inanimados.
"O vento sussurrava segredos."
"A cidade sorria para os turistas."
"O tempo voa."
15. Apóstrofe
É a interrupção da frase para fazer um chamamento (vocativo) a alguém ou algo, seja real, imaginário ou uma entidade abstrata.
"Ó morte, onde está teu poder?"
"Deus, por que me abandonaste?"
"Minha terra, que saudades sinto de ti!"
PARTE III – FIGURAS DE CONSTRUÇÃO
Figura de linguagem é forma de ver o mundo.
16. Elipse
É a omissão de um termo que não foi dito antes, mas que o contexto permite identificar imediatamente.
"Na sala, apenas três alunos." (Omissão de havia ou estavam).
"Quero café." (Omissão do pronome Eu).
17. Zeugma
É um tipo específico de elipse: a omissão de um termo que já foi mencionado anteriormente, para evitar repetição.
"Eu gosto de livros; ela, de filmes." (A vírgula substitui o verbo gosta, já citado).
"Ele prefere o mar; eu, a montanha."
18. Pleonasmo
É a repetição de uma ideia para reforçar o sentido.
Pleonasmo Literário: "Vi com meus próprios olhos" (Uso enfático e aceitável na literatura).
Pleonasmo Vicioso: "Subir para cima" ou "Entrar para dentro" (Considerado erro ou vício de linguagem).
19. Hipérbato
É a inversão da ordem direta da frase (Sujeito + Verbo + Complemento) para criar um efeito estilístico ou dar destaque a um termo.
"Das lembranças, nunca me livro." (Ordem direta: Eu nunca me livro das lembranças).
"Ouviram do Ipiranga as margens plácidas..." (Famoso exemplo do Hino Nacional).
20. Anáfora
É a repetição intencional de uma mesma palavra ou expressão no início de frases ou versos consecutivos.
"Tudo passa. Tudo muda. Tudo termina."
"É pau, é pedra, é o fim do caminho."
21. Polissíndeto
Repetição insistente de conjunções (geralmente o "e") para transmitir a ideia de continuidade, cansaço ou acúmulo de ações.
"E chora, e grita, e sofre, e espera."
22. Assíndeto
É o oposto do polissíndeto: a ausência de conjunções. As orações são separadas apenas por vírgulas, dando rapidez e agilidade ao texto.
"Vim, vi, venci."
"Chegou, olhou, saiu, desapareceu."
As figuras de linguagem não são meros "enfeites" do texto; elas são formas de enxergar e reconstruir o mundo através das palavras, permitindo que a linguagem expresse o que o sentido literal não alcança.
Quem domina figuras de linguagem entende não só a língua, mas o modo humano de sentir, imaginar e pensar por imagens.
_________________________________________________________________14.2 – Funções da Linguagem
1. Fundamento das Funções da Linguagem
Toda mensagem linguística envolve seis elementos básicos, definidos por Roman Jakobson:
Emissor (quem fala)
Receptor (quem ouve)
Mensagem (o que é dito)
Código (língua usada)
Canal (meio de comunicação)
Contexto (assunto ou realidade referida)
Cada função da linguagem surge quando a ênfase recai sobre um desses elementos.
2. Função Emotiva (ou Expressiva)
Foco: Emissor Expressa sentimentos, emoções, opiniões e estados interiores de quem fala.
Características:
Uso da 1ª pessoa
Interjeições, exclamações
Linguagem subjetiva
Exemplos:
"Estou cansado dessa injustiça!"
"Que alegria te ver!"
"Eu acho isso maravilhoso."
Análise: O objetivo não é informar, mas revelar o estado emocional do falante.
3. Função Conativa (ou Apelativa)
Foco: Receptor Busca influenciar o comportamento de quem ouve ou lê.
Características:
Uso da 2ª pessoa
Verbos no imperativo
Vocativos
Exemplos:
"Feche a porta."
"Você precisa estudar mais."
"Amigos, lutem por seus direitos!"
Presente em:
Propaganda
Discurso político
Ordens e pedidos
4. Função Referencial (ou Denotativa)
Foco: Contexto Transmite informações objetivas sobre a realidade.
Características:
Linguagem clara e direta
Pouca ou nenhuma emoção
Predomínio da 3ª pessoa
Exemplos:
"A água ferve a 100 graus Celsius."
"O Brasil fica na América do Sul."
"A aula começa às 8 horas."
Presente em:
Textos científicos
Jornais
Livros didáticos
5. Função Poética
Foco: Mensagem Valoriza a forma da mensagem, não apenas o conteúdo.
Características:
Jogos de palavras
Ritmo, som, imagens
Linguagem figurada
Exemplos:
"O vento varre vontades vazias."
"A noite veste véus de veludo."
"Amor é fogo que arde sem se ver." (Camões)
Presente em:
Poemas
Músicas
6. Função Metalinguística
Foco: Código A linguagem fala de si mesma.
Características:
Explicação de palavras
Definições
Análise gramatical
Exemplos:
"Substantivo é a palavra que nomeia seres."
"‘Casa’ é um substantivo comum."
"Essa frase está no passado."
Presente em:
Dicionários
Gramáticas
Aulas de língua
7. Função Fática
Foco: Canal Serve para iniciar, manter ou encerrar o contato.
Características:
Frases curtas
Pouco conteúdo informativo
Exemplos:
"Alô?"
"Tá me ouvindo?"
"Pois é..."
"Certo, então tchau."
Presente em:
Conversas cotidianas
Telefonemas
Mensagens rápidas
8. Mistura de Funções
Uma mesma mensagem pode ter mais de uma função, mas sempre há uma dominante.
Exemplo: "Compre agora e transforme sua vida!"
Conativa: convencer
Poética: impacto da forma
Função dominante: Conativa.
9. Quadro-Resumo
Dominar as funções da linguagem é compreender não apenas o que se diz, mas por que se diz. Quem entende as funções, lê além das palavras e fala com consciência de intenção.
_________________________________
14.3 – Variação Linguística
1. Princípio fundamental
Nenhuma língua é fixa.
Uma língua só existe porque é usada, e todo uso humano é variável.
Variação linguística é o fato de uma mesma língua apresentar formas diferentes de dizer a mesma coisa, conforme:
quem fala
onde fala
quando fala
para quem fala
em que situação fala
A variação não é defeito da língua.
Ela é a prova de que a língua está viva.
Se a língua não variasse, ela estaria morta, como o latim clássico.
2. Norma não é sinônimo de língua
Antes de falar dos tipos de variação, é preciso separar três coisas:
a) Língua
É o conjunto real de formas usadas por um povo para se comunicar.
b) Norma padrão
É um modelo artificial, criado pelas gramáticas, para unificar a escrita formal e servir de referência social.
Ela não descreve tudo o que as pessoas falam.
Ela seleciona o que a sociedade considera “prestigiado”.
c) Uso real
É como as pessoas realmente falam no cotidiano:
com cortes
com simplificações
com marcas regionais e sociais
Exemplo:
Norma padrão:
“Nós iremos ao local onde você reside.”Uso culto real:
“Nós vamos ao lugar onde você mora.”Uso cotidiano:
“A gente vai lá onde você mora.”
Todas comunicam.
A diferença é social, não linguística.
3. Tipos de variação linguística
3.1 Variação regional (diatópica)
Depende do lugar onde se fala.
Exemplos:
Mandioca / aipim / macaxeira
Guri (Sul) / menino (geral)
Trem (MG) = coisa
Rapariga:
em Portugal: moça
no Brasil: prostituta
A língua carrega a geografia e a cultura do povo.
3.2 Variação social (diastrática)
Depende do grupo social do falante.
Fatores:
escolaridade
profissão
classe social
grupo cultural
Exemplos:
Jurídico:
“Impetrar mandado de segurança.”Médico:
“O paciente apresenta quadro clínico estável.”Popular:
“Ele tá melhorando.”
Cada grupo molda a língua conforme suas necessidades.
3.3 Variação etária
Depende da geração.
Exemplos:
Jovens:
“crush”, “shippar”, “ranço”, “top”Adultos:
“namorado”, “relacionamento”Mais velhos:
“cortejar”, “galantear”, “paquera”
A língua muda conforme as gerações mudam.
3.4 Variação histórica (diacrônica)
A língua muda com o tempo.
Exemplos:
Vossa mercê → você
Ph → f (pharmacia → farmácia)
Lyra → lira
Vós → quase desapareceu do uso no Brasil
O português de hoje não é o português de Camões — e nem será o de daqui a 300 anos.
3.5 Variação situacional (diafásica)
Depende da situação.
Exemplo da mesma ideia em registros diferentes:
Formal:
“Solicito sua presença na reunião.”Neutro:
“Espero você na reunião.”Informal:
“Aparece lá.”
Mudar o modo de falar conforme a situação é sinal de domínio da língua, não de erro.
4. Preconceito linguístico
Preconceito linguístico é julgar a inteligência, o valor ou a dignidade de alguém pela forma como fala.
Erro central:
Confundir diferença com erro.
Exemplo:
“Nóis vai”
Não é falha mental.
É traço de variedade popular.
Só vira “erro” quando é usado num contexto que exige norma padrão, como:
prova
documento
redação formal
Não existe fala inferior.
Existe fala inadequada a determinado contexto.
5. Adequação linguística
Falar bem não é falar difícil.
Falar bem é falar de modo adequado à situação.
Exemplos:
Conversa entre amigos → informal
Entrevista de emprego → norma culta
Redação oficial → norma padrão
Quem domina a língua, muda de registro como muda de roupa: conforme a ocasião.
6. Papel da escola
A escola ensina a norma padrão porque ela é exigida socialmente em:
concursos
vestibulares
documentos
vida profissional formal
Mas isso não apaga as outras formas de falar.
Erro grave é ensinar:
“Só a norma padrão é língua de verdade.”
Isso é falso linguística e humanamente.
José Rodolfo G. H. de Almeida é escritor e editor do site www.conectados.site
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