Com um artifício conceitual que iludiu gerações de comentaristas distraídos, Hegel redefiniu o próprio conceito de Estado. Já não se tratava, ali, de um ente concreto, de uma instituição visível e delimitável na moldura do tempo: o Estado era, antes, a culminação necessária de um processo. Não uma substância, mas uma fase, uma aurora tardia do espírito no pântano da História. O verdadeiro ente, nesta cosmovisão hegeliana, não era o Estado, era o próprio devir. Mas o devir, por essência, não é ente algum é a negação do ente, é a transitoriedade pura, o deslizar do ser em direção ao nada. Eis a contradição majestosa e escondida à vista de todos, ao promover o movimento, o acontecer que acontece a si mesmo à condição de realidade última, Hegel destitui de existência toda realidade concreta, todo homem, todo cosmos, toda coisa que ousasse afirmar uma identidade própria no tumulto dos séculos. A única realidade, então, seria essa História que se devora a si mesma, esse "a acontecer...