A Ditadura do Pensamento – O Marxismo e o Silenciamento da Verdade
Em disputas políticas, costuma-se discutir o que deve ser feito, mas raramente se pergunta em nome de quê se age. Quando essa pergunta desaparece, algo fundamental se perde, não apenas no debate público, mas na própria capacidade de compreender a realidade.
O que segue é uma reflexão sobre essa perda e sobre as consequências de subordinar o pensamento a fins que se apresentam como inquestionáveis.
Se Marx tivesse se limitado a uma análise econômica ou histórica, seu sistema poderia ter permanecido no campo das hipóteses. Mas sua ambição era outra: construir uma ciência social que não apenas descrevesse a realidade, mas a transformasse. Esse impulso era religioso. A ciência, para ser ciência, deve buscar a verdade independentemente das consequências políticas; Marx, ao contrário, quis forjar uma ciência que fosse ao mesmo tempo instrumento de poder e justificativa para um partido inquestionável.
A epistemologia marxista, ao afirmar que todo conhecimento é condicionado pela luta de classes, destrói a própria possibilidade de um conhecimento objetivo. Se toda teoria reflete um interesse de classe, então o marxismo, como teoria, não passa de um reflexo dos interesses do proletariado revolucionário. Mas se isso for verdade, ele não pode reivindicar objetividade; se for falso, colapsa como uma ideologia entre outras.
A psicologia desse erro mostra um mecanismo comum nas ideologias totalitárias: a confusão entre conhecimento e vontade. O marxista busca a vitória. O intelecto, que deveria servir à contemplação e à descoberta, é instrumentalizado para justificar um fim político. O pensamento se torna servil ao partido, e qualquer desvio é denunciado como “falsa consciência” ou “desvio burguês”. Aqui se manifesta um dos traços mais marcantes da mentalidade revolucionária: a submissão total da verdade à vontade do poder.
Essa confusão não é apenas uma falha lógica; ela tem consequências devastadoras. A subordinação da verdade à política leva inevitavelmente à destruição da ciência e à instrumentalização da cultura. A União Soviética, ao adotar a biologia lysenkista, não apenas condenou milhões à fome, mas demonstrou o destino inevitável de qualquer sistema que dissolva a fronteira entre teoria e prática: a verdade se torna irrelevante, a realidade é moldada pela ideologia e a mentira sistematizada se torna norma.
A falha fundamental do marxismo não está apenas em sua metodologia epistemológica, mas em sua estrutura psicológica. Ao prometer um conhecimento “total” da sociedade, ele oferece uma segurança ilusória ao intelecto inseguro. O militante marxista não precisa duvidar, questionar ou investigar; ele já possui a chave interpretativa para todos os fenômenos do mundo. Essa ilusão de onisciência é psicologicamente irresistível para aqueles que temem a complexidade da realidade e buscam uma narrativa que forneça um sentido absoluto à existência.
O socialismo não apenas erra na compreensão da realidade, mas cria um tipo de mente incapaz de reconhecê-la. O militante, convencido de que todo conhecimento alternativo é um produto da ideologia burguesa, se blinda contra qualquer correção. Seu pensamento se torna impenetrável ao argumento racional porque sua crença não é racional, mas existencial. O socialismo, ao se apresentar como ciência, assume a forma de doutrina, e ao se proclamar racional, se torna imune à razão.
Essa característica explica por que o marxismo sobreviveu ao colapso de todas as suas previsões. Marx previu a iminente destruição do capitalismo, o agravamento das contradições de classe, a inevitabilidade da revolução proletária, e todas essas previsões falharam. Mas o marxista não abandona sua crença, porque sua fidelidade ao sistema não depende de sua veracidade, mas de sua função psicológica. Ele não adere ao marxismo porque ele é verdadeiro, mas porque precisa que ele seja verdadeiro. O erro, se torna uma necessidade emocional e social.
A destruição da verdade não é um efeito colateral do socialismo, mas seu objetivo lógico. A verdade, sendo um critério independente da vontade, é um obstáculo para qualquer ideologia que pretenda remodelar a realidade conforme seus próprios termos. Um partido revolucionário que se propõe a transformar o mundo deve, antes de tudo, destruir a possibilidade de uma verdade transcendente. Isso explica a hostilidade marxista à religião, à metafísica e até mesmo à lógica clássica: qualquer critério de verdade que transcenda a luta política é uma ameaça ao monopólio da ideologia.
O pragmatismo, ao afirmar que a verdade é apenas aquilo que funciona, cria o terreno filosófico para essa perversão, mas é o marxismo que a implementa na prática com um rigor totalitário. Se a verdade deve servir a um projeto político, então toda ciência, toda cultura e todo pensamento devem ser subordinados ao partido. Não há mais diferença entre verdade e propaganda. Temos a tirania do discurso oficial, onde a mentira se torna a regra e a realidade é um crime de Estado.
A dissolução da fronteira entre verdade e ação, é um erro destrutivo. Ela destrói a própria estrutura da civilização. Onde a verdade é definida pelo partido a mentira se torna uma necessidade política. Isso é uma lição histórica. A verdade, quando sacrificada em nome de um ideal revolucionário, não desaparece, ela se vinga. E sua vingança vem na forma de colapsos econômicos, perseguições em massa, e o sofrimento humano.
A busca pela verdade não pode ser subordinada a um projeto político sem que se destrua sua própria essência.
José Rodolfo G. H. de Almeida é escritor e editor do site www.conectados.site
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The Dictatorship of Thought – Marxism and the Silencing of Truth
José Rodolfo G. H. de Almeida is a writer and editor of the website www.conectados.site
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