Mecanismos de Poder e a Corrupção Intelectual
Existe uma crença amplamente disseminada de que o socialismo é uma ideologia política com princípios bem definidos e uma base teórica coesa. Isso representa, por natureza, um erro de atribuição categórica. O socialismo, especialmente em sua versão marxista, não é uma doutrina estática que defende princípios fixos. Ele é um movimento, e um movimento, por definição, não se prende a idéias permanentes, mas se reinventa continuamente conforme as necessidades estratégicas do momento.
Karl Marx, ao definir sua teoria, já alertava que "a teoria só existe na prática". Isso significa que o marxismo não se sustenta como uma filosofia coerente que pode ser analisada isoladamente, mas sim como uma praxis, um conjunto de ações táticas destinadas à corrosão das estruturas vigentes. Não é uma ideologia, é um vetor de transformação que, para atingir seus objetivos, pode se apropriar de qualquer discurso, desde que útil à revolução.
Perguntar se um indivíduo dentro da universidade "é marxista" revela um desconhecimento fundamental da natureza do movimento. O que importa não é se um acadêmico se identifica como marxista, mas se ele opera dentro do esquema de corrosão dialética próprio do marxismo. Muitos, sem perceber, já estão condicionados a esse método, ainda que se declarem "neutros".
Se o socialismo não é um sistema de ideias, mas um processo contínuo de corrosão e reconstrução, qual é o papel da educação formal dentro dessa dinâmica? Simples: formar os soldados do movimento. E para isso, três qualidades são essenciais:
Relativismo moral: a rejeição da verdade objetiva e a aceitação de que tudo pode ser redefinido conforme a conveniência da causa.
Desumanização do indivíduo: O homem deixa de ser um agente moral autônomo e passa a ser um mero "representante de classe".
Lealdade absoluta ao partido: O indivíduo não pode ter valores próprios, sua identidade e suas crenças devem se alinhar aos ditames do movimento, ainda que esses ditames mudem radicalmente de um dia para o outro.
Esses três elementos garantem que o militante possa lutar por uma causa hoje e contra ela amanhã, sem qualquer conflito interno.
A dialética que em suas origens era um método filosófico para a busca da verdade, foi convertida por Marx em um mecanismo de corrosão intelectual. No modelo clássico, a dialética funcionava como um processo de refinamento do pensamento: uma tese era confrontada por sua antítese, e desse choque surgia uma síntese, e um novo nível de compreensão.
Mas no marxismo, a síntese não é um degrau rumo ao conhecimento, mas apenas um passo tático na revolução. Ao invés do objetivo ser a busca da verdade ele passa a ser a instrumentalização do conflito. O objetivo é desestabilizar as estruturas vigentes. O que era um instrumento da razão foi transformado em um instrumento de poder.
O movimento marxista pode defender simultaneamente duas ideias contraditórias sem qualquer desconforto. O que importa não é a coerência lógica, mas a eficácia estratégica. Hoje, pode-se afirmar que "a liberdade de expressão é um direito absoluto"; amanhã, a mesma militância pode defender a censura irrestrita, sob um pretexto qualquer.
Se a lógica tradicional busca a verdade, a dialética marxista busca apenas a oportunidade.
O marxismo, não é uma teoria econômica nem uma doutrina fixa, mas um método de corrosão e tomada de poder. Ele não busca um sistema estável, mas sim um processo contínuo de destruição e reconstrução conforme as conveniências da revolução.
Mas todo método de corrosão pressupõe um objeto a ser corroído. O marxismo não se define apenas pelo que promete construir no futuro, mas principalmente pelo que precisa destruir no presente. E aqui surge um ponto fundamental que costuma ser ignorado: o alvo do marxismo não é apenas o burguês enquanto figura social, mas o próprio funcionamento espontâneo da economia.
Para o imaginário marxista, tanto o indivíduo economicamente autônomo quanto o sistema que emerge dessa autonomia representam obstáculos à utopia revolucionária. Por isso, “burguês” e “capitalismo” são tratados como categorias morais malignas, ainda que raramente sejam definidos com precisão. Ambos passam a ser vistos não como fenômenos naturais da liberdade humana, mas como inimigos históricos a serem eliminados.
É exatamente por essa razão que se torna necessário interromper a análise do marxismo para definir aquilo que ele ataca sem compreender: o capitalismo.
Um equívoco daqueles que atacam o sistema econômico capitalista é tratá-lo como uma entidade consciente, uma doutrina deliberadamente formulada, quando, na realidade, ele não é nada além da forma natural como a economia funciona quando há liberdade.
O capitalismo simplesmente emerge da interação espontânea entre indivíduos. Ele não foi inventado; ele acontece.
Se um agricultor planta batatas e decide vendê-las no mercado, ele não está "aderindo a uma ideologia", mas apenas exercendo sua liberdade econômica. A formação de preços, determinada por oferta e demanda, não é um plano consciente elaborado por grandes capitalistas reunidos em uma cúpula secreta, mas um reflexo natural da realidade econômica.
E aqui está o ponto que desmonta o argumento socialista: não faz sentido cobrar do sistema econômico capitalista a solução para a miséria como se ele fosse um ente moral ou um projeto político. O capitalismo é apenas o mecanismo que permite a criação de riqueza. Se a riqueza não está sendo gerada, a pergunta correta não é "por que o capitalismo não resolveu isso?", mas sim "o que está impedindo a economia de funcionar livremente?".
E a resposta, invariavelmente, é: o intervencionismo estatal.
Diante disso, surge a questão: o capitalismo precisa do Estado? Sim, mas de um Estado limitado. Um governo que proteja os direitos fundamentais, o direito à vida, à liberdade e à propriedade, mas que não se transforme em um engenheiro social.
A confusão nasce quando se assume que toda forma de governo deve necessariamente ser um agente de regulação total da sociedade. Isso é falso. Um governo pode existir para garantir que os contratos sejam respeitados, que a violência não destrua as bases do livre mercado e que os indivíduos possam interagir sem coerção externa. Mas quando o Estado ultrapassa essa função e se torna um fim em si mesmo, buscando perpetuar seu poder por meio do controle e da manipulação, ele deixa de servir ao cidadão e passa a subjugá-lo.
Quando alguém se define rigidamente como "socialista" ou qualquer outro rótulo político, sem perceber, está se reduzindo a uma peça de um projeto maior. O indivíduo, que deveria ser um ser autônomo e pensante, se torna um instrumento de um movimento que não lhe pertence.
A história está cheia de exemplos de sociedades que, cegas por utopias, destruíram as próprias liberdades que diziam defender.
José Rodolfo G. H. de Almeida é escritor e editor do site www.conectados.site
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Mechanisms of Power and Intellectual Corruption
There is a widespread belief that socialism is a political ideology with well-defined principles and a cohesive theoretical basis. This inherently represents a categorical attribution error. Socialism, especially in its Marxist version, is not a static doctrine that defends fixed principles. It is a movement, and a movement, by definition, does not adhere to permanent ideas, but continually reinvents itself according to the strategic needs of the moment.
Karl Marx, in defining his theory, already warned that "theory only exists in practice." This means that Marxism does not stand as a coherent philosophy that can be analyzed in isolation, but rather as a praxis, a set of tactical actions aimed at corroding existing structures. It is not an ideology, it is a vector of transformation that, to achieve its objectives, can appropriate any discourse, as long as it is useful to the revolution.
Asking if an individual within the university "is a Marxist" reveals a fundamental misunderstanding of the nature of the movement. What matters is not whether an academic identifies as a Marxist, but whether they operate within the dialectical corrosion scheme inherent to Marxism. Many, without realizing it, are already conditioned to this method, even if they declare themselves "neutral."
If socialism is not a system of ideas, but a continuous process of corrosion and reconstruction, what is the role of formal education within this dynamic? Simple: to train the soldiers of the movement. And for this, three qualities are essential:
Moral relativism: the rejection of objective truth and the acceptance that everything can be redefined according to the convenience of the cause.
Dehumanization of the individual: Man ceases to be an autonomous moral agent and becomes a mere "representative of the class."
Absolute loyalty to the party: The individual cannot have their own values; their identity and beliefs must align with the dictates of the movement, even if these dictates change radically from one day to the next.
These three elements ensure that the militant can fight for a cause today and against it tomorrow, without any internal conflict.
Dialectics, which in its origins was a philosophical method for the pursuit of truth, was transformed by Marx into a mechanism of intellectual corrosion. In the classical model, dialectics functioned as a process of refining thought: a thesis was confronted by its antithesis, and from this clash arose a synthesis, and a new level of understanding.
But in Marxism, synthesis is not a step towards knowledge, but merely a tactical step in the revolution. Instead of the objective being the pursuit of truth, it becomes the instrumentalization of conflict. The objective is to destabilize the existing structures. What was an instrument of reason has been transformed into an instrument of power.
The Marxist movement can simultaneously defend two contradictory ideas without any discomfort. What matters is not logical coherence, but strategic effectiveness. Today, one can affirm that "freedom of expression is an absolute right"; tomorrow, the same activists may defend unrestricted censorship, under any pretext.
If traditional logic seeks truth, Marxist dialectics seeks only opportunity.
Marxism is not an economic theory nor a fixed doctrine, but a method of corrosion and seizure of power. It does not seek a stable system, but rather a continuous process of destruction and reconstruction according to the conveniences of the revolution.
But every method of corrosion presupposes an object to be corroded. Marxism is not defined only by what it promises to build in the future, but mainly by what it needs to destroy in the present. And here arises a fundamental point that is often ignored: the target of Marxism is not only the bourgeois as a social figure, but the very spontaneous functioning of the economy.
For the Marxist imagination, both the economically autonomous individual and the system that emerges from this autonomy represent obstacles to the revolutionary utopia. Therefore, "bourgeois" and "capitalism" are treated as evil moral categories, even if they are rarely precisely defined. Both come to be seen not as natural phenomena of human freedom, but as historical enemies to be eliminated.
It is precisely for this reason that it becomes necessary to interrupt the analysis of Marxism in order to define what it attacks without understanding: capitalism.
A mistake made by those who attack the capitalist economic system is to treat it as a conscious entity, a deliberately formulated doctrine, when, in reality, it is nothing more than the natural way in which the economy functions when there is freedom.
Capitalism simply emerges from the spontaneous interaction between individuals. It was not invented; it happens.
If a farmer plants potatoes and decides to sell them at the market, he is not "adhering to an ideology," but simply exercising his economic freedom. Price formation, determined by supply and demand, is not a conscious plan devised by large capitalists gathered in a secret summit, but a natural reflection of economic reality.
And here is the point that dismantles the socialist argument: it makes no sense to demand that the capitalist economic system solve poverty as if it were a moral entity or a political project. Capitalism is merely the mechanism that allows the creation of wealth. If wealth is not being generated, the correct question is not "why hasn't capitalism solved this?", but rather "what is preventing the economy from functioning freely?".
And the answer, invariably, is: state interventionism.
Given this, the question arises: does capitalism need the state? Yes, but a limited state. A government that protects fundamental rights—the right to life, liberty, and property—but that does not transform itself into a social engineer.
The confusion arises when it is assumed that every form of government must necessarily be an agent of total regulation of society. This is false. A government can exist to ensure that contracts are respected, that violence does not destroy the foundations of the free market, and that individuals can interact without external coercion. But when the State oversteps this function and becomes an end in itself, seeking to perpetuate its power through control and manipulation, it ceases to serve the citizen and begins to subjugate them.
When someone rigidly defines themselves as "socialist" or any other political label, without realizing it, they are reducing themselves to a piece of a larger project. The individual, who should be an autonomous and thinking being, becomes an instrument of a movement that does not belong to them.
History is full of examples of societies that, blinded by utopias, destroyed the very freedoms they claimed to defend.
José Rodolfo G. H. de Almeida is a writer and editor of the website www.conectados.site
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