A Ilusão do Saber Científico


 


O fato de alguém dominar o método da pesquisa científica não significa, nem de longe, que compreenda o fundamento cognitivo que o torna possível. Há uma diferença abissal entre praticar uma técnica e saber o que se está fazendo e, portanto, saber por que aquilo funciona. Como operadores de um maquinário epistemológico cuja arquitetura desconhecem por completo.

Um sujeito pode manipular equações, calibrar instrumentos, coletar dados e até publicar artigos revisados por pares, sem jamais ter se perguntado, por que esse método é considerado científico. O que o distingue de outras formas de conhecimento, inclusive aquelas tidas como "não científicas".

A resposta a essas perguntas exige mais do que um manual de metodologia científica. Exige filosofia e da boa.

Comecemos com um conceito que toda a tradição filosófica séria, de Aristóteles a Tomás de Aquino, passando por Descartes e chegando a Husserl, trata como ponto de partida: a evidência.

O que é uma evidência? É a exibição imediata de uma verdade. Um juízo autoafirmativo que não carece de prova porque se impõe à inteligência como uma percepção direta, como o fato de que eu sou eu mesmo. Isso não se demonstra; se constata. E essa constatação se dá por um ato de intuição.

Mas atenção, “intuição” aqui não é um sentimento vago ou uma iluminação mística. No vocabulário filosófico, é a apreensão direta de um ente ou uma verdade, sem mediações discursivas. Aristóteles já ensinava que os primeiros princípios da lógica são autoevidentes. Não porque foram demonstrados, mas porque são intuídos como necessariamente verdadeiros sob pena de toda e qualquer demonstração posterior perder sua base.

A lógica, enquanto ciência do raciocínio, é composta por encadeamentos, o famoso silogismo. Uma proposição leva a outra, que leva a uma terceira, e assim por diante. Mas esse encadeamento só se sustenta se, em algum ponto, houver uma base que não precise ser demonstrada. Caso contrário, caímos num regresso infinito de justificativas, onde tudo depende de tudo, mas nada se sustenta em si.

Essa base, esses princípios primeiros, são autoevidentes. E por isso mesmo, são captados pela intuição intelectual, e não pelo raciocínio discursivo. A razão caminha, mas a intuição aponta a direção.

A lógica depende de três condições para que o conhecimento científico seja possível:

A evidência da verdade em si: isto é, a intuição de um princípio primeiro, que não precisa, nem pode ser provado.

A possibilidade da prova: isto é, o encadeamento lógico de proposições em que uma decorre de outra. Mas tal encadeamento só é válido se houver um nexo perceptível entre premissas e conclusões.

A evidência do nexo: este é o ponto mais negligenciado. O vínculo entre uma afirmação e outra, entre a premissa e a conclusão, não pode ser arbitrário. Ou ele é evidente por si, ou tudo desaba. Se o nexo for apenas suposto, se depender de outro nexo anterior, e assim sucessivamente, voltamos ao impasse do infinito.

Não existe conhecimento científico sem intuição. O cientista que despreza a intuição, achando que tudo se resume a provas e experimentos, vive na ilusão do conhecimento. Ele opera, mas não compreende. É uma crença supersticiosa de que um método mecânico pode gerar conhecimento verdadeiro sem reflexão sobre seus fundamentos. É a técnica que não sabe o que legitima sua aplicação.

O método científico só é científico na medida em que parte de princípios evidentes intuídos como tais, sobre os quais se constroem encadeamentos lógicos igualmente transparentes. 

Em outras palavras, o verdadeiro conhecimento começa quando o sujeito sabe o que está fazendo, e por que isso faz sentido. 

A fé cega no método científico, típica do positivismo, nasce de uma tentativa desesperada de fundar o conhecimento sobre bases puramente empíricas e operacionais, eliminando qualquer vestígio de metafísica, intuição ou filosofia primeira. A figura emblemática dessa impostura é Auguste Comte, um filósofo que, sem conseguir refutar a metafísica, simplesmente decretou que ela não deveria mais ser levada em conta.

A falácia aqui é elementar, ao tentar excluir a metafísica, o positivista já se encontra, sem saber, no terreno da metafísica. Pois declarar que "apenas o que pode ser verificado empiricamente é verdadeiro" é, em si, uma proposição metafísica, indemonstrável por meios empíricos. O positivismo é um suicídio lógico e, como todo suicida, finge coragem onde há apenas desespero.

Considere, por exemplo, o caso de Galileu Galilei, cuja defesa da observação empírica e da experimentação foi revolucionária não porque negava a filosofia, mas porque a integrava. Galileu sabia perfeitamente que nenhuma observação, por mais precisa, tem valor se não estiver ancorada num sistema coerente de pressupostos teóricos. Ele próprio afirmou que o "livro da natureza" está escrito em "linguagem matemática", e isso supõe uma inteligibilidade anterior à experiência sensível. Quem lê precisa primeiro saber o alfabeto.

A tragédia moderna é que os cientistas perderam o alfabeto, mas continuam recitando frases como se soubessem o que dizem.

Desde que se divorciou da filosofia e da teologia, fontes genuínas de intuição e de princípios primeiros, a ciência perdeu sua alma. Passou a rastejar atrás de verbas públicas, de narrativas politicamente aceitáveis, de consensos fabricados.

Veja o exemplo recente da chamada “ciência da mudança climática”. Independentemente dos dados empíricos (que existem e devem ser considerados), o problema está na blindagem do discurso científico contra qualquer crítica lógica, filosófica ou epistemológica. A ciência transformou-se em dogma de fé, e o cientista, em sacerdote secular.

Mas nada disso é novidade. Já em sua "Crítica da Razão Pura", Kant alertava para o limite do conhecimento empírico, ele nos diz como os fenômenos aparecem, mas nunca por que ou o que são em si. Ele chamava isso de “fenomenalismo” e, embora sua solução seja discutível, o diagnóstico é inegável. 

Um mundo onde se fala em inteligência artificial, mas não se consegue responder à pergunta mais primitiva da inteligência natural.

Não se trata aqui de desprezar a ciência, muito pelo contrário. Trata-se de restaurar sua dignidade perdida. 


José Rodolfo G. H. de Almeida é escritor e editor do site www.conectados.site

Apoie o Site

Se encontrou valor neste artigo, considere apoiar o site. Optamos por não exibir anúncios para preservar sua experiência de leitura. Agradecemos sinceramente por fazer parte do suporte independente que torna isso possível!

Entre em Contato

Para dúvidas, sugestões ou parcerias, envie um e-mail para contato@conectados.site


________________________________


The Illusion of Scientific Knowledge


The fact that someone masters the scientific research method does not, by any means, mean that they understand the cognitive foundation that makes it possible. There is an abysmal difference between practicing a technique and knowing what one is doing and, therefore, knowing why it works. They are like operators of an epistemological machine whose architecture they completely ignore.

A person can manipulate equations, calibrate instruments, collect data, and even publish peer-reviewed articles without ever having asked themselves why this method is considered scientific. What distinguishes it from other forms of knowledge, including those considered "non-scientific"?

The answer to these questions requires more than a scientific methodology manual. It requires philosophy, and good philosophy at that.

Let's begin with a concept that the entire serious philosophical tradition, from Aristotle to Thomas Aquinas, passing through Descartes and arriving at Husserl, treats as a starting point: evidence.

What is evidence? It is the immediate display of a truth. A self-affirming judgment that requires no proof because it imposes itself on intelligence as a direct perception, like the fact that I am myself. This is not demonstrated; it is ascertained. And this ascertainment occurs through an act of intuition.

But note that "intuition" here is not a vague feeling or a mystical illumination. In philosophical vocabulary, it is the direct apprehension of an entity or a truth, without discursive mediation. Aristotle already taught that the first principles of logic are self-evident. Not because they have been demonstrated, but because they are intuited as necessarily true, otherwise any subsequent demonstration would lose its basis.

Logic, as the science of reasoning, is composed of chains of reasoning, the famous syllogism. One proposition leads to another, which leads to a third, and so on. But this chain of reasoning only holds if, at some point, there is a basis that does not need to be demonstrated. Otherwise, we fall into an infinite regress of justifications, where everything depends on everything else, but nothing stands on its own.

This foundation, these first principles, are self-evident. And for that very reason, they are grasped by intellectual intuition, not by discursive reasoning. Reason moves forward, but intuition points the way.

Logic depends on three conditions for scientific knowledge to be possible:

The evidence of truth itself: that is, the intuition of a first principle, which neither needs nor can be proven.

The possibility of proof: that is, the logical chain of propositions in which one follows from another. But such a chain is only valid if there is a perceptible link between premises and conclusions.

The evidence of the link: this is the most neglected point. The link between one statement and another, between the premise and the conclusion, cannot be arbitrary. Either it is self-evident, or everything collapses. If the connection is merely assumed, if it depends on another prior connection, and so on, we return to the impasse of infinity.

There is no scientific knowledge without intuition. The scientist who disregards intuition, believing that everything boils down to proofs and experiments, lives in the illusion of knowledge. He operates, but does not understand. It is a superstitious belief that a mechanical method can generate true knowledge without reflection on its foundations. It is the technique that does not know what legitimizes its application.

The scientific method is only scientific insofar as it starts from evident principles intuited as such, upon which equally transparent logical chains are built.

In other words, true knowledge begins when the subject knows what he is doing, and why it makes sense.

The blind faith in the scientific method, typical of positivism, arises from a desperate attempt to found knowledge on purely empirical and operational bases, eliminating any vestige of metaphysics, intuition, or first philosophy. The emblematic figure of this imposture is Auguste Comte, a philosopher who, unable to refute metaphysics, simply decreed that it should no longer be taken into account.

The fallacy here is elementary: in attempting to exclude metaphysics, the positivist unknowingly finds himself in the realm of metaphysics. For declaring that "only what can be empirically verified is true" is, in itself, a metaphysical proposition, undemonstrable by empirical means. Positivism is logical suicide and, like all suicides, feigns courage where there is only despair.

Consider, for example, the case of Galileo Galilei, whose defense of empirical observation and experimentation was revolutionary not because it negated philosophy, but because it integrated it. Galileo knew perfectly well that no observation, however precise, has value if it is not anchored in a coherent system of theoretical assumptions. He himself stated that the "book of nature" is written in "mathematical language," and this presupposes an intelligibility prior to sensory experience. Those who read must first know the alphabet.

The modern tragedy is that scientists have lost the alphabet, yet continue reciting phrases as if they knew what they were saying.

Since divorcing itself from philosophy and theology, genuine sources of intuition and first principles, science has lost its soul. It has begun to crawl after public funds, politically acceptable narratives, and manufactured consensus.

Consider the recent example of so-called "climate change science." Regardless of the empirical data (which exist and should be considered), the problem lies in shielding scientific discourse from any logical, philosophical, or epistemological criticism. Science has become a dogma of faith, and the scientist, a secular priest.

But none of this is new. Already in his "Critique of Pure Reason," Kant warned of the limits of empirical knowledge; it tells us how phenomena appear, but never why or what they are in themselves. He called this "phenomenalism," and although its solution is debatable, the diagnosis is undeniable.

A world where artificial intelligence is discussed, but the most basic question of natural intelligence remains unanswered.

This is not about dismissing science, quite the opposite. It's about restoring its lost dignity.


José Rodolfo G. H. de Almeida is a writer and editor of the website www.conectados.site

Support the website

If you found value in this article, please consider supporting the site. We have chosen not to display ads to preserve your reading experience. We sincerely thank you for being part of the independent support that makes this possible!

Get in Touch

For questions, suggestions or partnerships, send an email to contato@conectados.site